segunda-feira, 14 de julho de 2014

TODOS OS SONHOS SÃO POSSÍVEIS!


Ontem foi dia de almoçarada em casa da sogra!
Mesa farta, gargalhadas, música ao vivo, histórias do antigamente, enfim, o melhor de África com o melhor de Portugal. Comi como se nunca tivesse ouvido falar em disciplina, abracei gente boa, fechei os olhos muitas vezes para sentir o vibrar da guitarra na minha alma e ri com as habituais e mirabolantes histórias de quem passou ou ainda vive por terras angolanas.
Bom, mas por incrível que pareça, esta nota introdutória foi o menos interessante da tarde que acabou por se arrastar até à quase noite. Aquilo que me marcou e me emocionou foi mesmo o que vivi com um miúdo de dez anos, chamado Té!
Quando chegámos à humilde casa da alegria, eu e a minha namorada, fomos imediatamente abraçados por este puto. Viu-nos entrar, largou o que estava a fazer no sofá e exclamou: Tios!! Este parentesco do coração, não de sangue, sabe-me bem pois gosto do miúdo de lés a lés daquele metro e pouco que tem. É um guerreiro, soube sofrer numa idade em que apenas é suposto brincar e, melhor ainda, apesar de não estar a salvo de novas complicações de saúde ninguém dá por isso. Tem essa mestria dentro dele. É um mestre, portanto.
Depois do abraço, voltou para o sofá, sentou um computador arcaico ao colo e ali ficou o tempo suficiente, calado e concentrado, até aquele comportamento chamar a minha atenção. Sentei-me ao seu lado e perguntei-lhe o que estava a fazer. Disse-me que estava a ver jogos para a “PlayStation”. Vi-o correr pelo menos quatro páginas inteiras de jogos no “Google”. Perguntei-lhe qual era o seu jogo favorito, ele respondeu-me “GTA”, o qual tinha em minha casa, e depois perguntei-lhe se era bom a jogar aquilo. Ele disse-me que não sabia porque não tinha “PlayStation”, mas que tinha um amigo que lhe tinha pedido para ele pedir uma à mãe para que, dessa forma, fosse possível jogarem “online”. Ora, a mãe deste puto, outra lutadora da cabeça aos pés e que apesar das enormes dificuldades nunca esconde o sorriso, não tem como materializar um pedido destes ao filho, sabia eu, portanto aquele desejo ficaria eternamente no ar durante, pelo menos, os próximos anos e os miúdos nunca viveriam o desejo maior de jogarem juntos.
Foi neste momento que senti a magia. Uma voz dentro de mim, da alma mesmo, pediu-me para realizar-lhe aquele sonho. Foi uma sensação maravilhosa que rapidamente se tornou numa convicção. Não pelo simples dar, mas pelo facto deste puto, apesar da consciência das dificuldades, nunca ter desistido de acreditar que era possível e, por isso mesmo, continuava a ver jogos que poderia eventualmente jogar se tivesse a dita máquina. O que ele me mostrou, sem perceber, é que estava a co-criar o seu destino e isso é absolutamente divino. Num ápice, saí de casa com a minha namorada, fomos à “Worten”, despachámos o assunto em menos de nada e regressámos à casa cheia, de mesa agora mais despida.
Chamámos a minha sogra, cuja adoração pelo miúdo é imensurável, chamámos a sua mãe, algumas visitas aperceberam-se de que algo ia acontecer e um silêncio bonito juntou-se à festa. Sentei-me, então, ao seu lado e disse-lhe como se não tivesse apenas dez anos:
- O tio vai dizer-te uma frase para tu repetires e nunca mais te esqueceres, pode ser?
O miúdo não percebeu nada, porém, e segundos depois, acabou por assentir com a cabeça. Tinha não sei quantos olhos, tão curiosos como ele, a olhar para ele.
- A frase é: TODOS OS SONHOS SÃO POSSÍVEIS.
- O quê?
A malta riu-se.
-Repete esta frase do tio: TODOS OS SONHOS SÃO POSSÍVEIS.
A plateia começou a dizê-la e o puto foi atrás, até que, e já em silêncio, a disse sozinho:
- TODOS OS SONHOS SÃO POSSÍVEIS!
Nesse momento levantei-me, fui buscar a prenda, embrulhada e tudo, e entreguei-lha. Não era Natal, não era o seu aniversário, era apenas o resultado daquilo que ele, sem ter consciência, tinha criado mesmo à minha frente. Quando queremos muito uma coisa, a energia que depositamos nesse desejo aliada a todas as ações que nos são possíveis tomar fazem com que, mais tarde ou mais cedo, tudo se realize.
A sua reação não se conta por palavras. A emoção que se viveu naquela casa também não.
E quando disse, abraçado à mãe, que agora só lhe faltava o tal “GTA” para começar a jogar, eis que lhe é entregue em mão. Para quê ter uma coisa em casa que não lhe damos valor, se a podemos oferecer a alguém quando é tudo o que essa pessoa quer?
Hoje é outro dia, porém há uma imagem que não me larga a cabeça: vê-lo a dar festinhas na embalagem sem perceber que o estava a fazer.

6 comentários:

  1. Obrigada Gustavo! Obrigada pela partilha, história boa e de encher o coração! Obrigada!

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  2. Com isto que li posso te agradecer o bom que é sentir que é possível qualquer sonho. obrigada Gustavo

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  3. Maria João Rodrigues16 de julho de 2014 às 23:39

    Boa noite a todos! Sabem dizer- me como posso entrar em contacto com o Gustavo? Obrigada.

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  4. Gustavo parabéns pelo lindo gesto. Fiquei emocionada de lágrimas nos olhos ....
    Gostava de saber como posso enviar um jogo para o Té?

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  5. :') Maravilhoso. Adorava ser um mosquitinho para estar lá e viver esse momento. Adoro momentos especiais :') :D

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  6. Que momento mágico! Mas Gustavo, se mais pessoas houvessem idênticas a si, que observam, escutam e se interessam por descodificar o não visível dos outros, muito mais sonhos se realizaram. E falo também em outros sonhos não materiais que, não menos importantes, são o alimento e o sustento da alma. Que bom o Gustavo ser assim! É Feliz! E só quem o é o pode fazer sentir! Doida por assistir a uma conferência sua ao vivo agora que o descobri!

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