segunda-feira, 7 de abril de 2014

GOSTO MUITO DE TI, AVÓ!


É, ao ver-te definhar de dia para dia, aos pés desse teu enorme, agora frágil, coração, malandro que me amou como nunca fui amado, que me esbato e embato com a realidade incontornável, não do fim, mas do amor que soubeste expandir. O teu exemplo prosperará por muitas e muitas vidas, eu próprio me incumbirei de passá-lo aos teus bisnetos, pois mesmo que não os conheças eles saberão quem foste, a natureza que te enche e o que representaste para mim. Beberão tudo o que me ensinaste, tudo o que adianta nesta vida e serão mais fortes por isso, assim como eu fui. Terás orgulho em mim.
Olho-te, ainda que muitas vezes de esguelha porque me dá dor o teu respirar e testemunhar algumas expressões que nem sabes que fazes, e amo-te, e por isso olho-te sempre. Amo-te sempre. Vezes sem conta, passo os dedos por entre o teu fino cabelo e agiganta-me quando adormeces no meu mimo. Por outro lado, revolta-me quando gemes e tosses; já não és digna do corpo que vestes e por isso dou muitas vezes por mim a desejar ter-te do outro lado, daquele onde já se encontra o teu filho, o meu tio preferido, e um outro amor da tua vida, O amor da tua vida. Sei que, neste momento, serias muito mais feliz com eles. Sabes, às vezes sinto que vais lá e voltas. A paz momentânea do teu rosto atesta esse reencontro. Deve ser, literalmente, do outro mundo, mas mesmo assim voltas. Voltas só para me ver, só para me acalmar, só para espreitar quem está ao teu lado. É amar até ao fim, não é linda? Ainda tenho tanto para aprender contigo.
E o que me ensinaste sobre o perdão e sobre o que é verdadeiramente a aceitação? A tua luz, estejas onde estiveres, será uma estrela guia, uma orientação eterna para aquilo que resta da caminhada e sempre que a vida me parecer cruel ou injusta, ou que os outros me julguem por nada ou qualquer bagatela, vou olhar para o céu, relembrar o teu olhar, o teu sorriso meigo e perceber que afinal nada é comparado àquilo que tu tiveste de passar. E se tu conseguiste, por que raio não hei de eu conseguir? Aqui ou lá, chamarei por ti, aprenderei contigo e carregarei a tua bandeira, pois nunca nada nem ninguém me inspirou tanto e impulsionou tanto o meu crescimento como tu.
Amanhã vou ver-te outra vez; mesmo que não me vejas, vou ver-te outra vez; vou estar ao teu lado da mesma forma que sempre estiveste do meu.
Gosto muito de ti, avó.  



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