segunda-feira, 21 de abril de 2014

Confissões "COSMOPOLITAN", Novembro 2013



Confesso,
farto-me de rir com a expressão “não tenho tempo para nada”.
Quantas horas têm os seus dias? E quantas horas têm os dias no Quénia? E nas Maurícias, no Vietname e na Antártida? Vinte e quatro, certo? Então se é assim em todo o mundo, porque é que se queixa que “nunca tem tempo para nada”? É mais que os outros? Só se for mais distraída e alienada da realidade que a rodeia. O seu problema não é a falta de tempo, é a total e descabida ausência de gestão do tempo que tem, mil quatrocentos e quarenta minutos todos os dias. É estranho, mas a falta de tempo tornou-se, e porque dá muito jeito, num dos grandes e brandos costumes da nossa sociedade, servindo de justificação para tudo. Os preguiçosos, os fazeres humanos (aqueles que acham que são o que fazem) e as vítimas agradecem. Há quem acredite nisto e até fomente esta crença, mas eu não e é por isso que o texto não acaba aqui.
Por muito que lhe custe a acreditar e por muitos argumentos, prontos a disparar da sua voz, que até considere válidos para justificar tamanha inverdade, a verdade é que as horas, os minutos e os segundos que dispomos diariamente chegam perfeitamente para sentir, trabalhar e dormir, ou seja, para vivermos as nossas paixões e cumprir com os nossos deveres, criar e produzir e, posteriormente, descansar. Isto só não acontece quando as pessoas ocupam os seus dias inteiros com as lamentações do costume, as queixas e as aparentes injustiças de que, pelos vistos, as suas vidas são pródigas. O tempo só não é suficiente, e nunca será, se a sua mente se puser constantemente ao barulho. Sim, quantas vezes já ficou petrificada, inerte, porque a sua mente está a mil rotações por segundo? Uma mente imparável corresponde sempre a um corpo estagnado e a uma alma vazia. Quando se ri, não está a pensar, certo? Quando beija e faz amor também não, pois não? Mas se porventura estiver, pode ter a certeza de uma coisa, o riso amarela, o beijo fica quadrado e o desejo evapora. Não é possível ao ser humano pensar e sentir ao mesmo tempo e é por isso que as pessoas dizem que não têm tempo para nada. Para nada do que verdadeiramente importa, os sentidos. Os dias passam, nada as apaixona porque a mente não lhes permite sentir seja o que for, as emoções vão-se toldando e a tristeza impera. Quantas vezes já deixou de ir ao ginásio, estar com as amigas, comprar uma lingerie para surpreender o namorado ou programar um fim-de-semana romântico porque não se organiza nem impõe os seus horários deixando-se ficar horas a fio no escritório revoltada com essa situação, ou em casa a dormir, ou a inventar todas as desculpas e mais algumas para não ser feliz? Quantas vezes já deixou de fazer tudo isso porque não se respeita e não se dá ao respeito? Quantas vezes já se prometeu a si mesma que amanhã é que é o dia de começar a treinar? Quantas vezes já se arrependeu de não ter estado com as amigas porque não se sentia boa companhia para ninguém? Quantas vezes já lhe passou pela cabeça comprar uma lingerie e não o fazer porque não sabe como o namorado vai reagir? E quantas vezes já lhe apeteceu programar um fim-de-semana romântico e não se permitiu porque tem imensas coisas para acabar de fazer no trabalho? Todo este processo consome horas à pessoa, inibe-a de qualquer vontade e atira-a para um poço profundo chamado depressão, onde a luz escasseia, o ar pesa toneladas e a vontade de viver se escapa pelos dedos da mão. Já viu o que se anda a fazer? Já alguma vez tinha pensado naquilo que é verdadeiramente importante para si? Já alguma vez definiu a sua lista de prioridades? Todos os exemplos que acabei de dar são esquemas da mente e a mente chama-se mente porque nos mente todos os dias, fazendo-nos acreditar nas histórias mais maquiavélicas e mirabolantes que podemos imaginar. Acredite nos seus instintos e respeite as suas vontades, só assim conseguirá destronar a sua mente, voltar a sentir, produzir e dormir descansado.
Parta, portanto, do princípio que todos os dias tem oito horas para a sua vida pessoal onde estão incluídas as suas paixões e os seus hobbies, mas também os deveres e as responsabilidades que contemplam a sua vida, mais oito horas para a sua vida profissional e ainda outras oito horas para descansar. Naturalmente terá de fazer os respetivos ajustes à sua realidade, como tirar uma hora de um lado e colocá-la no outro, mas nunca subestime nenhuma destas fatias da sua vida. É no equilíbrio que está a nossa maior virtude e dependemos apenas de nós para o encontrar.
Deixo-lhe uma última nota para posterior reflexão: a maioria das pessoas usa mais a expressão “não tenho tempo para nada” do que a palavra “amo-te”, o que significa, inclusivamente, que deixou de haver tempo para amar. O que sente a este respeito? Expresse-se. Tem todo o tempo do mundo!


1 comentário:

  1. Caro Gustavo
    Confesso que sou uma das pessoas que passo a vida a dizer que "não tenho tempo". Não tenho tempo quando a companhia não me agrada, "não tenho tempo" quando não me apetece cozinhar, "não tenho tempo" quando não me sinto motivada para o exercicio fisico (que tanto preciso).
    "Não tenho tempo" para tanta coisa que gostava de fazer, porque faço tantas outras que me dão tanto prazer.... Pouco a pouco vou tomando consiencia de que não posso ter tudo, nem fazer tudo, por isso há que estabelecer prioridades e tentar banir do meu vocabulário a expressão "não tenho tempo" :-)

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