quinta-feira, 15 de novembro de 2012

RECUPERA-TE E RECUPERARÁS


Na ravina, por onde se derramava vertiginosamente, não havia uma única saliência, uma pedra que fosse onde se pudesse agarrar, repousar, renovar ideias e começar de novo, por isso, a ideia de escalar o monte de si mesma foi sendo protelada, como a vida, até ao limite do seu corpo. Sempre que acordava, renovava os votos para adormecer outra vez e quando o escrutínio não era o desejado, refugiava-se na eficiência dos comprimidos, estepes da sua desgraça. Anestesiada, não sentiu o soçobrar do coração, a dispensa vazia do estômago, o entorpecimento da alma e foi preciso o mais alto comissariado de Deus atirá-la para as urgências do hospital para que anjos terrenos a trouxessem de volta à existência. As sessões de psicologia passaram a fazer parte dos seus dias e aos poucos foi-se atenuando a perdição e afirmando a ressurreição do ser mulher.

O preâmbulo da sua nova jornada foi premiado naquela tarde de Sábado.   

O novo milénio oferecera-lhe a mais bela das recordações: João.

Sem homem desde a traição e com os afectos e o prazer nas ruas da amargura, Madalena começou por encetar uma busca implacável por si mesma, rumo à tão almejada paz, passaporte para o verdadeiro amor. Se queria João nos seus braços, teria de se querer a si primeiro, para que quando o tivesse já fosse detentora de si mesma.
E teve.


in " A Dança da Vida", 2010

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