sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A SEGUNDA VIDA DO "GATO DAS BOTAS"



Olá,
sou um gato com um mês de idade, residia com a minha mãe e o meu irmão na marina de Sitges, arredores de Barcelona, e o meu destino mudou quando fui aconchegado por um par de mãos tão suave que não tive outra hipótese senão voltar a acreditar que havia um sentido para estar vivo.

Quando me abraçaram, confesso, estava preparado para morrer.
Sem esperança, vivia com tanta fome, frio e dores que desejava, no íntimo do meu pequeno ser, deixá-las de sentir para sempre. Foi por isso que me sentei no meio da estrada e de costas para os carros. Arrisquei tudo. Ou me viam ou me atropelavam, fosse como fosse, tudo era melhor do que aquilo que estava a passar. Da vida conhecia pouco, pois além de respirar e ter aberto os olhos há relativamente poucos dias, a verdade é que a frequência com que espirrava era tanta que já tinha os pulmões cansados e, além disso, acabara de ficar cego com uma enorme conjuntivite. Viver? Porquê?

Porque, percebi minutos depois, que a vida nos reserva sempre inúmeras surpresas. Porque o simples “acreditar” faz milagres. Porque, de um momento para o outro, tudo pode recomeçar. Foi o que me aconteceu. Exactamente o que me aconteceu desde o abraço daquela deusa. Levaram-me a um senhor que vestia uma bata branca e trataram de mim. Fizeram trinta por uma linha, mas eu já nem queria saber. Sentia-me confiante e se miava não era a queixar-me, estava era a exultar pelo que me havia acabado de acontecer. Aos poucos o calor do amor voltara, a fome foi passando e eu fui começando a ver as cores do mundo outra vez. Que bom é estar vivo.
Já ouvi por aqui dizer que daqui a uns dias me vão levar para um país diferente, chamado Portugal. Vou de avião, seja lá o que isso for. O que eu espero é não ter problemas com a língua e que alguém me possa amar tanto quanto eu mereço, pois se foi para sobreviver que viva uma vida próspera e abundante em afectos. Sim, quero mimos e crescer ao lado de alguém que seja um exemplo para mim, assim como eu sinto que sou um exemplo para quem me está a ler neste momento.

Gosto de sentir esta compaixão nas pessoas e gostava que o que aconteceu comigo se multiplicasse por outros colegas, pois, neste momento e espalhados pelo mundo, muitos de nós precisam do mesmo abraço que eu tive para termos uma real oportunidade de viver. Não garanto nada a ninguém, mas sei a bondade e o incondicionalismo que vive em todos nós. Não somos animais, somos amigos. Somos puros e tudo o que desejamos é uma alma gémea de outra raça que nos ampare e dê confiança por forma a inspirarmos a vida uns dos outros.
Quanto ao resto, tenho saudades da minha mãe e das brincadeiras com o meu mano. Por um lado, emociona-me saber que não voltarei a vê-los e que, certamente, ainda andarão à minha procura, mas por outro, também sei que só assim o meu irmão terá mais hipóteses de sobreviver, pois a comida era escassa e ela tinha de dividir o que conseguia por dois. Também sei que ficará mais quentinho e protegido do frio que se aproxima. Mãe, quero que saibas que foste uma grande gata e que é graças a ti que eu vou ter uma história fantástica daqui para a frente. Obrigado por tudo, mas especialmente pelo carácter que sempre demonstraste ter. Vou seguir-te as patinhas e não te desiludirei. Desejo-vos, do fundo do meu coração, que possam ter a vida que merecem e que, quem sabe, possam ser abençoados como eu fui. Só vos posso dizer que vale a pena viver, por isso lutem, lutem sempre, até esse momento chegar.

Miamos juntos…

 
PS – Naturalmente, não fui eu que escrevi este texto. Sou um gato, lembram-se? Foi um senhor qualquer que tem um blogue e gosta de publicar uns livros. Acho eu…

Miauuuu

7 comentários:

  1. Adorei a acção... Lindo... Parabens!!! tens um grande amigo... aliás ambos tÊm :D

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  2. e a chorar escrevo que se pelo menos uma vez na vida cada um de nós fosse capaz de sentir compaixão assim por outro alguém, tudo era tão mais humano...

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  3. Gato das Botas, que bom que tenhas encontrado alguém que te mima e cuida de ti! O meu nome é Goldie e sou uma cadela rafeira, loura e super pirosa... Também eu descobri o calor do amor, no colo de uma miúda que se perdeu de amores por mim e me resgatou de uma vida de medos e sobressaltos. Desejo-te as maiores felicidades e continua a miar!

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  4. Mais uma grande historia ;) é a de um gajo mas podia ser de um ser humano ,pois perante a nossa vida o que nos dá sentido para viver é acreditar que somos capazes de viver eacreditando que amanhaserá melhor ,porque a vida so tem sentido acrediando em nós porque somos nós que damos esse sentido a vida e desta forma saimos vencedores todos seres :)

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