sexta-feira, 30 de novembro de 2012

DES"ALMA"DOS


Tem sido frequente assistir a uma espécie de marcha dos desalmados, uma tropa de gente triste, poluída e que, pelo olhar, trejeitos e afins, se nota que hipotecou a vida recentemente. Sim, recentemente porque esta malta tem entre vinte e trinta anos.
É um desfile horrendo ao qual, e por me apaixonar com facilidade por pessoas, não me consigo manter indiferente. Caminham de olhar gelado, misturados numa tremenda miséria de espírito e entopem-se até rebentar... com eles e com aqueles que os rodeiam, pois a morte de qualquer pessoa, por muito estúpida que seja, deixa sempre um legado de dor em quem lhe era próxima e fica.
Estão por todo o lado e não estão em lado nenhum: uns continuam a comer que nem uns animais quando o peso já nem lhes cabe na roupa que vestem, outros fumam que nem uns idiotas como se o respeito pela própria vida fosse uma espécie de teoria utópica e outros ainda queixam-se de tudo e de nada porque se habituaram a fazê-lo. Desistiram.
Desalmados, pá!
É por isso que eu acho que devia ser constituída uma lei da chapada! Sim, um género de despertar, mas com a mão cheia estampada na fronha de quem anda a brincar com isto. Assim, quem corrompesse a oportunidade de estar vivo, e se entupisse em detrimento de agradecê-la, levava um chapadão no focinho para ver se acordava para a vida. Tenho a certeza que uns bons pares de lambadas eram remédio santo.
É que existe gente acamada e prostrada em cadeiras de rodas, por exemplo, que daria tudo para colocar as suas almas cheias de coragem, resistência e convicções em corpos aptos como os deles, nem que fosse por apenas quinze minutos. Quinze minutos, só quinze minutos, e estes desalmados têm mil quatrocentos e quarenta por dia e só se esfregam na lama.
Enfim, é triste, mas há gente a morrer mais viva e grata que estes débeis exemplos que por aí resvalam.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

TODAS AS PESSOAS SÃO...



Todas as pessoas são diamantes.
Brilhantes safiras e rubis, algumas ainda em estado bruto, é certo, mas todas igualmente valiosas.

Todas as pessoas são animais.
Autênticas espécies em vias de extinção, umas feras e outras mansas, mas todas donas do mesmo território.

Todas as pessoas são oportunidades.
Poderosas lições, umas de sabor a mel e outras a fel, mas todas de incomparável mestria. 

Todas as pessoas são almas.
Reluzentes mestres e aprendizes, algumas ainda densas e egóicas, mas todas compostas pela mesma energia.

Todas as pessoas são pessoas.
Sorrisos rasgados e puros, ainda que nem sempre o demonstrem.
Bondosas e queridas, ainda que nem sempre o consigam.
Apaixonadas e apaixonantes, ainda que nem sempre se mereçam.
Sábias e inspiradoras, ainda que nem sempre se permitam.

Todas as pessoas são afetos.
Por isso abraça-as, muitas vezes é tudo o que precisam para se assumirem e voltarem a acreditar que existe um sentido para aqui estarem.

sábado, 17 de novembro de 2012

EIS-ME DE PÉ...


Eis-me de pé, outra vez, como se a mão de um qualquer homem não me tivesse roubado o mais profundo segredo, o verbo da minha alma e o passo seguinte da minha missão, como se o chão não me tivesse fugido debaixo dos pés e o medo não me tivesse assolado a mente.

Eis-me de pé, outra vez, após uma longa noite de balanço onde vos poderia enumerar o que me levaram, mas da qual vos prefiro contar o que me deixaram e o que me deixaram não poderia ser mais valioso: a convicção de que sou um verdadeiro guerreiro, de que se me levarem a própria vida nascerei outra vez para cumprir o que preciso de cumprir, de que tudo sou capaz e de que me tornei mestre no que diz respeito a transformar o mau em bom.

Eis-me de pé, outra vez, mantendo a fé inabalável no meu objetivo e certo de que a força do meu novo livro, por ser dedicado a uma alma demasiado inspiradora, jamais se poderá vergar perante qualquer adversidade, seja ela qual for.

Eis-me de pé, outra vez, a rebentar de força e confiança, preparado e motivado para dar continuidade ao que me propus, certo de que as centenas de linhas e milhares de palavras que são agora reféns, em parte incerta, se reencontrarão para fazer deste livro o passaporte para a magia que ele é.

Eis-me de pé, outra vez, para vos aplaudir e agradecer cada gesto, palavra e emoção, cada vez mais consciente de que são do melhor que me acontece todos os dias.

Eis-me sentado, de frente para outro computador, com os dedos a fervilhar e a emoção a correr, rumo ao dia em que a soma destas folhas se transforme no livro que poderá, definitivamente, mudar milhares de vidas.

Obrigado

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

AGENDA "ARRISCA-TE A VIVER" ATÉ FINAL DO ANO



AGENDA "ARRISCA-TE A VIVER" ATÉ FINAL DO ANO!
RESERVAS:
TODA A INFORMAÇÃO, ASSIM COMO GALERIA DE FOTOS ACERCA DO EVENTO NA PÁGINA "WORKSHOPS" DO MEU BLOGUE.
E ENTÃO, ARRISCAS? 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

RECUPERA-TE E RECUPERARÁS


Na ravina, por onde se derramava vertiginosamente, não havia uma única saliência, uma pedra que fosse onde se pudesse agarrar, repousar, renovar ideias e começar de novo, por isso, a ideia de escalar o monte de si mesma foi sendo protelada, como a vida, até ao limite do seu corpo. Sempre que acordava, renovava os votos para adormecer outra vez e quando o escrutínio não era o desejado, refugiava-se na eficiência dos comprimidos, estepes da sua desgraça. Anestesiada, não sentiu o soçobrar do coração, a dispensa vazia do estômago, o entorpecimento da alma e foi preciso o mais alto comissariado de Deus atirá-la para as urgências do hospital para que anjos terrenos a trouxessem de volta à existência. As sessões de psicologia passaram a fazer parte dos seus dias e aos poucos foi-se atenuando a perdição e afirmando a ressurreição do ser mulher.

O preâmbulo da sua nova jornada foi premiado naquela tarde de Sábado.   

O novo milénio oferecera-lhe a mais bela das recordações: João.

Sem homem desde a traição e com os afectos e o prazer nas ruas da amargura, Madalena começou por encetar uma busca implacável por si mesma, rumo à tão almejada paz, passaporte para o verdadeiro amor. Se queria João nos seus braços, teria de se querer a si primeiro, para que quando o tivesse já fosse detentora de si mesma.
E teve.


in " A Dança da Vida", 2010

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

OU ÉS LIMITADO OU ÉS APAIXONADO!



Uma convicção limitadora é uma certeza de que és limitado. É uma crença a teu próprio respeito que acaba por colocar densas barreiras não só à tua aprendizagem como, também, à vivência de inúmeras experiências. Ainda que meras suposições sobre a realidade não sendo, por isso, verdadeiras, todas as convicções limitadoras afastam a pessoa dos seus objecivos e daquilo que, na maioria das vezes, lhes apetece, verdadeiramente, viver.

Gosto sempre de associar esta temática à paixão.

E faço-o porque acredito que todos nós temos uma enorme paixão por estar apaixonados, logo, as imagens do que perdemos por estarmos tão convictos do quanto limitados somos, são tão fortes, quase agressivas, que, num ápice, podemos tomar a consciência do que andamos a desperdiçar e mudar de atitude no segundo seguinte.
Estar apaixonado é a melhor coisa do mundo. Quantas vezes já o disseste ou ouviste alguém dizer isto? De facto, há uma tendência generalizada para associar à paixão, alguns dos melhores momentos ou fases da nossa vida e isso está cem porcento correcto, pois o tão almejado estado de felicidade só pode ser, verdadeiramente, alcançado quando pomos paixão em tudo o que somos, temos e fazemos.

Toma como exemplo aquela história onde te apaixonaste perdidamente por aquela pessoa. Como é que começou? Quais foram as coisas que sentiste e nunca tinhas sentido? Quais foram as coisas que fizeste e nunca tinhas feito? Quais foram as coisas que viveste e pensavas não existirem? Ultrapassaste os teus limites? Foste surpreendido? Está atento às imagens e às respostas que estão a passar na tua mente. Foi bom? Apetecia-te viver tudo de novo com a mesma pessoa ou com outra qualquer? Acredito que sim. Agora diz-me, essas memórias são suficientes para, hoje em dia, seres feliz? Têm o condão de te alimentar quando não estás apaixonado? Puxam-te para cima, quando estás mais em baixo? Acredito que não. E porquê? Porque elas não estão a acontecer “Agora”. Porque “Agora” és limitado. A paixão pode e deve ser muito mais do que o estar apaixonado por alguém. Esse fogo é aquilo que te move, que te faz sentir, fazer e viver coisas novas, que te faz ultrapassar os limites que julgavas ter e que tem a capacidade, renovada e infinita, de te surpreender. O teu desafio passa “Agora” por tentar encontrar, entre todo o lixo que depositaste em ti, algo que te apaixone, que mexa, finalmente, contigo e para isso basta levantares os olhos.

A vida é apaixonante.  


in "Arrisca-te a Viver", 2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

ELEVA-TE!


A verdadeira ascensão do homem começa no momento em que ele percebe que tudo o que procurou nos outros, durante anos e vidas, se encontra dentro dele. O alimento e o reconhecimento, a compaixão e o perdão, mas acima de tudo o Amor. Todos nós somos ou já fomos vampiros esfomeados, capazes de planear ataques perfeitos. Todos nós já nos alimentámos de pessoas, provámos o sangue das suas almas e sugámos a sua energia. E tudo isto para quê? Para que elas nos possam reconhecer, para que possamos ouvir, diariamente, o que precisamos mas não temos onde nem como encontrar dentro de nós. Para que elas nos digam aquilo que queremos ser e alimentem o nosso ego. Esta prática, necrófaga, é recorrente em todos os seres humanos em não ascensão. Todos nós já procurámos, nos outros, os seus braços de compaixão para nos ampararem e nos darem “cólinho”. Todos nós já nos refugiámos em suas casas, abusando do seu espaço, porque não conseguimos estar sozinhos na nossa e enfrentar o boi pelos cornos. Todos nós já precisámos deles porque em determinada altura da vida fomos uns coitadinhos e a vitimização ainda é o melhor caminho para termos direito à atenção alheia. E tudo isto para quê? Para que nos possam perdoar, para que nos possam entender e proteger com festinhas e cafunés que, na maioria das vezes, nem lhes apetece dar, mas como é amigo tem de ser, e a partir daí consigamos abrir, novamente, os olhos e seguir com a nossa vida. Esta é, também, uma prática recorrente em todos os seres humanos em não ascensão. Por último, todos nós já exigimos que os outros nos amassem para que nos pudéssemos sentir amados. Já quisemos que a nossa companheira, o nosso amigo ou o nosso familiar estivesse disponível a dar os cem porcento dele mais os cinquenta porcento que faltavam de nós, quando na realidade isso não é possível, pois nenhum todo é superior a cem porcento e o pior é que muitos ainda têm e tiveram o descabimento e a coragem demente de cobrar e dizer: “não sou feliz contigo porque não me dás o que preciso”. Este comportamento egoísta padece, ainda, de uma patologia infecto-contagiosa, pois o passar do tempo acabará por trazer à pessoa com quem nos relacionamos todas as frustrações interiores que guardamos cá dentro, resultantes de um passado mal dirigido, e adulterar para sempre a sua autoconfiança, auto-estima e felicidade. Esta doença caracteriza de igual forma todos os seres humanos em não ascensão.
A verdadeira ascensão do homem começa no momento em que ele percebe que tudo o que procurou nos outros, durante anos e vidas, se encontra dentro dele. E não há ascensão sem um caminho. E não há um bom caminho, se não o fizermos sozinhos. Se custa? Custa. Se dói? Dói. Se é sofrível? Por vezes. Se é vital? É. Se vale a pena? Sempre.

in "Os Laços que nos Unem", 2008

terça-feira, 6 de novembro de 2012

RESPONSABILIZA-TE Ò IRRESPONSÁVEL


Uma das mais fortes e feias tendências do ser humano é afirmar que tem sempre as mãos lavadas e que as dos outros é que andam sempre sujas. À mesa, tudo bem, agora, no quotidiano, é terrível. Culpar, sistematicamente, os que nos rodeiam pelo que não somos, não conseguimos e não temos é, permitam-me a franqueza, a solução dos fracos.
Os guerreiros sujam as mão e assumem as suas vulnerabilidades, aceitam quando fracassam e concordam com o resultado que obtiveram, voltam a tentar e nunca desistem, por isso, acredito eu, são os únicos que chegam, verdadeiramente, a algum lado.
Quantas vezes erraste ou não deste o teu melhor e olhaste para o lado no momento de apurar o responsável? Não assumires os teus actos e os resultados que deles advêm é passar uma vida inteira a chover no molhado e vai chover tanto e vais ficar tão molhado que, mais tarde ou mais cedo, vais morrer afogado na tua própria irresponsabilidade. Mesmo que tenhas um objetivo concreto, uma estratégia bem definida e nenhum medo a assolar-te o espírito, não conseguirás avançar e, muito menos, ir mais longe se não fores capaz de aprender com os teus erros.
A assunção do erro é a certeza de que o caminho é por outro lado, que, por isso, que estás mais perto de chegar onde queres e que és merecedor de uma viagem auspiciosa. Não há ninguém que consiga um feito grandioso sem falhar primeiro, da mesma forma que não há ninguém que atire as culpas todas para o lado e consiga, verdadeiramente, chegar a algum sítio.
 
in "Arrisca-te a Viver", 2012
 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

O DIA DA INDEPENDÊNCIA


Podes depender dos teus pais para ter uma cama para dormir, dos bancos para te conceder um empréstimo e comprar uma casa, de um chefe de cozinha para te fazer uma iguaria ou de um transporte que te leve de um ponto ao outro da cidade no tempo que precisas, mas isso é apenas um vislumbre da vida. A vida, no seu todo, são as tuas ideias, o teu projeto, os teus sonhos e a tua missão e não há nada destas coisas, nenhuma mesmo, que dependa de alguém a não ser de ti para a sua consumação. Agora, analisa bem o teu discurso interior, tenta perceber de que forma ainda és influenciado ou manipulado, e por quem, onde se encontra a tua auto-estima e o teu desejo de ser, realmente, feliz. É fundamental que fales contigo, pois existe sempre algo dentro de ti que te quer dizer alguma coisa, que te quer informar como estás tu por dentro. Na dúvida, dá sempre razão a essa voz em detrimento daquelas que te querem possuir, que te querem como um bem delas.
Depender de alguém, das ideias dos outros ou das filosofias das massas, é negar a nossa própria existência, é abdicar totalmente do poder que nos foi concedido à nascença e a mais profunda ingratidão para com a oportunidade que nos foi dada de aqui estar. Como já o disse, cada um de nós é um ser especial e precioso, com responsabilidades pessoais e sociais diferentes de todos os outros. Cada um de nós pode fazer a diferença.

Quantas vezes já deixaste de arriscar porque não to permitiram? Quantas vezes já sonhaste com algo diferente daquilo que te foi imposto ou ensinado e por isso desististe? Quantas vezes foste feliz por depender de algo ou alguém?
Muitas pessoas optam, conscientemente, pela dependência por acharem que a vida se torna mais fácil nesse estado de submissão. Na verdade não lhes é exigido que lutem por nada, por ninguém e, muito menos, por elas. Agora, pergunto eu, que interesse é que isto tem? Esta gente, apesar de respirar e dar ares da sua graça, já morreu e só andam aqui a fazer figura de corpo presente, pois as suas vidas já não são desafiantes. Ser dependente é ter medo de assumir o risco das suas paixões, é a prova de uma tremenda ausência de auto-estima, confiança e amor próprio.

Agora, considero determinante, até para não gerar qualquer tipo de confusão, mencionar um outro aspecto. Uma coisa é depender, outra, bem diferente, é precisar e todos nós, sem excepção, precisamos uns dos outros. Por exemplo, dependo de mim para acabar de escrever este livro, mas não dependo de nenhuma editora para publicá-lo. Preciso que o façam, naturalmente, mas se não for uma, será a outra. Percebes a diferença? Podes ouvir o que te dizem porque estás a precisar de conversar, mas não tens de tomar nada do que ouves como uma verdade tua. Podes precisar da companhia de alguém, mas não tens de depender da presença eterna dessa pessoa.
Dependes de ti. Precisas dos outros.


in "Arrisca-te a Viver", 2012

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A SEGUNDA VIDA DO "GATO DAS BOTAS"



Olá,
sou um gato com um mês de idade, residia com a minha mãe e o meu irmão na marina de Sitges, arredores de Barcelona, e o meu destino mudou quando fui aconchegado por um par de mãos tão suave que não tive outra hipótese senão voltar a acreditar que havia um sentido para estar vivo.

Quando me abraçaram, confesso, estava preparado para morrer.
Sem esperança, vivia com tanta fome, frio e dores que desejava, no íntimo do meu pequeno ser, deixá-las de sentir para sempre. Foi por isso que me sentei no meio da estrada e de costas para os carros. Arrisquei tudo. Ou me viam ou me atropelavam, fosse como fosse, tudo era melhor do que aquilo que estava a passar. Da vida conhecia pouco, pois além de respirar e ter aberto os olhos há relativamente poucos dias, a verdade é que a frequência com que espirrava era tanta que já tinha os pulmões cansados e, além disso, acabara de ficar cego com uma enorme conjuntivite. Viver? Porquê?

Porque, percebi minutos depois, que a vida nos reserva sempre inúmeras surpresas. Porque o simples “acreditar” faz milagres. Porque, de um momento para o outro, tudo pode recomeçar. Foi o que me aconteceu. Exactamente o que me aconteceu desde o abraço daquela deusa. Levaram-me a um senhor que vestia uma bata branca e trataram de mim. Fizeram trinta por uma linha, mas eu já nem queria saber. Sentia-me confiante e se miava não era a queixar-me, estava era a exultar pelo que me havia acabado de acontecer. Aos poucos o calor do amor voltara, a fome foi passando e eu fui começando a ver as cores do mundo outra vez. Que bom é estar vivo.
Já ouvi por aqui dizer que daqui a uns dias me vão levar para um país diferente, chamado Portugal. Vou de avião, seja lá o que isso for. O que eu espero é não ter problemas com a língua e que alguém me possa amar tanto quanto eu mereço, pois se foi para sobreviver que viva uma vida próspera e abundante em afectos. Sim, quero mimos e crescer ao lado de alguém que seja um exemplo para mim, assim como eu sinto que sou um exemplo para quem me está a ler neste momento.

Gosto de sentir esta compaixão nas pessoas e gostava que o que aconteceu comigo se multiplicasse por outros colegas, pois, neste momento e espalhados pelo mundo, muitos de nós precisam do mesmo abraço que eu tive para termos uma real oportunidade de viver. Não garanto nada a ninguém, mas sei a bondade e o incondicionalismo que vive em todos nós. Não somos animais, somos amigos. Somos puros e tudo o que desejamos é uma alma gémea de outra raça que nos ampare e dê confiança por forma a inspirarmos a vida uns dos outros.
Quanto ao resto, tenho saudades da minha mãe e das brincadeiras com o meu mano. Por um lado, emociona-me saber que não voltarei a vê-los e que, certamente, ainda andarão à minha procura, mas por outro, também sei que só assim o meu irmão terá mais hipóteses de sobreviver, pois a comida era escassa e ela tinha de dividir o que conseguia por dois. Também sei que ficará mais quentinho e protegido do frio que se aproxima. Mãe, quero que saibas que foste uma grande gata e que é graças a ti que eu vou ter uma história fantástica daqui para a frente. Obrigado por tudo, mas especialmente pelo carácter que sempre demonstraste ter. Vou seguir-te as patinhas e não te desiludirei. Desejo-vos, do fundo do meu coração, que possam ter a vida que merecem e que, quem sabe, possam ser abençoados como eu fui. Só vos posso dizer que vale a pena viver, por isso lutem, lutem sempre, até esse momento chegar.

Miamos juntos…

 
PS – Naturalmente, não fui eu que escrevi este texto. Sou um gato, lembram-se? Foi um senhor qualquer que tem um blogue e gosta de publicar uns livros. Acho eu…

Miauuuu