terça-feira, 23 de outubro de 2012

TRÊS SEGUNDOS PARA AGRADECER


"- Quero propor-te um jogo. - Disse-lhe o avô, sem esperar que as lágrimas do neto secassem.                                                                                                                                          
- Um jogo? - Perguntou Diogo, depois de limpar a comoção do nariz.                                                                                                                                    
- Sim. É muito simples. Tem apenas uma regra que te dá o direito de desistires quando quiseres, e um prémio valiosíssimo. Alinhas?                                                                                                                     
- Claro.
- Muito bem. Então, olha para a tua mão e com a ajuda dos dedos conta até três.                    
Diogo arregalou os olhos, sem perceber a intenção do avô, mas como lhe tinha dito que alinhava no jogo dele, contou até três em voz alta com os olhos centrados nos respectivos dedos que ia levantando. Primeiro esticou o indicador ,depois o médio e por fim o anelar, mas nada de especial acontecera a não ser o silêncio imperativo do avô.             
- Já está. - Disse-lhe, três segundos depois de ter iniciado a contagem.                                      
- Sabes o que aconteceu enquanto fazias a tua contagem?                                                        
- Não aconteceu nada. - Respondeu-lhe, depois de olhar para os lados como que à procura de qualquer coisa.                                                                                                                    
- Morreu uma criança em África vitima de pobreza extrema.                                                        
- O quê? - Perguntou-lhe, sem querer perguntar nada, apenas chocado pela introdução do tema e pela naturalidade com que o avô tinha dito o que dissera.                                        
- Lá a ciência é exata e a numerologia não falha. A cada três segundos eleva-se uma alma. E sabes o que representam essas crianças?                                                                         
Diogo ainda não estava em si. Não conseguia entender quais as intenções do avô em abordar uma matéria tão pesada depois de uma manhã tão auspiciosa e por isso, limitou-se a responder com a cabeça, dando-lhe a entender que não, não sabia o que representavam aquelas crianças.                                                                                                  
- Representam a importância que devemos dar às nossas próprias vidas. São almas puras que se ofereceram para justificar que nada é permanente e que ninguém sai daqui vivo. São anjos encarnados, vestidos pela miséria, que ao partirem nos obrigam a reavaliar o que é realmente importante nas nossas vidas. Se o medo ou o amor, se o passado ou o presente, se a partida dos que amamos ou a continuidade da nossa estadia.                                    
Diogo começou, finalmente, a entender o propósito maior do avô. Queria prepará-lo para uma eventual recaída e muni-lo de factos reais que o fizessem sobrevalorizar, acima de tudo, o privilégio que tinha em ser como era, sem se deixar levar por coisas de importância menor.                                                                                                                                
- Essa matemática da soma dos três segundos é a mais básica que aprendi até hoje mas, também, a mais difícil de meter na cabeça.                                            
- O jogo acabou, campeão. - Concluiu o avô Santos, mantendo a mesma serenidade durante todo o breve discurso.                                                                                                                  
O som da madeira a arder tomou o direito à palavra e nos dois minutos seguintes à conclusão do jogo apenas o seu contorcer se fez ouvir na sala, porém sem a atenção de nenhum dos dois. As lascas estalavam, saltavam e esmoreciam em cinza mas nem um nem outro contemplavam o seu espectáculo, perdidos que estavam, por diferentes razões, na dura realidade que havia sido dita. E só depois de duas tentativas frustradas que lhe ficaram a meio da garganta, é que Diogo lá arrancou coragem do seu peito e ganhou ar para falar, questionando imediatamente o avô:
- Já te apeteceu alguma vez contar até três e desaparecer? - Perguntou-lhe, sabendo que aquela era uma pergunta de risco, mas que precisava de lhe fazer, para depois dar também a sua resposta e assim ver-se livre do sentimento de culpa com que havia ficado depois da conversa. 
- Já. Já me apeteceu algumas vezes.                                                                                             
- A mim também. - Disse, quase em cima do que o avô tinha dito, e por qualquer razão sentiu-se mais leve.                                                                                                                         
O avô Santos, apercebendo-se de um legítimo nervosismo do neto, tentou acalmá-lo, levantando-se da sua cadeira e pondo-se em posição de cócoras ao lado da poltrona onde Diogo estava sentado, dando-lhe a mão:
- Não há problema nenhum em já teres pensado nisso, campeão. O importante, é sempre a partir da data em que tomas consciência. Eu próprio, até há algum tempo atrás, tinha muita vergonha de assumir, perante mim mesmo, a decepção de determinados pensamentos e quando me fizeram este jogo, senti exactamente o mesmo que tu. Percebi que, em diferentes fases da minha vida, estava a multiplicar demasiadas vezes aqueles três segundos agarrado a medos criados por mim, a erros do meu passado e à consecutiva falta de alguém. Percebi que tudo isso não me permitia tomar as rédeas da minha vida nem me deixava sentir feliz por poder controlá-la, ao contrário daquelas crianças. Para te ser sincero, muitas morreram-me nas mãos sem que eu lhes desse o devido valor, por estar mais preocupado com coisas sem importância, mas agora já as lavei e cada uma que se eleva, merece o meu sorriso e a minha gratidão. Foi, também, graças a elas que aprendi a amar-me e esse é o prémio mais valioso que podemos receber.                                                                                                                         
- Obrigado por teres percebido avô. Estava a fazer um esforço enorme para aceitar a morte do Meia-leca, mas agora vai levar menos de três segundos.                                                                                
- Eu sei. Tu és um verdadeiro campeão."

in "Os Laços que nos Unem", 2008                                                                                        

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