quinta-feira, 18 de outubro de 2012

TOCA - TE!


Silêncio. Só o correr da água e o tilintar das lágrimas na porcelana.

Cansada e sem respostas, encostou-se à parede e deixou-se escorregar até ficar de cócoras. Aguentou-se assim alguns minutos mas depois, os tornozelos cederam, a ganga vincada pela revolta das unhas tocou o chão, as pernas abriram e ali ficou, sentada, sem que ninguém entrasse, sem ninguém com quem partilhar a sua mágoa nem o seu sentimento de injustiça.

Sozinha e desengonçada, entre quatro paredes brancas, uma torneira aberta e um pedido concreto do corpo, fechou os olhos e sentiu um calor masculino invadir-lhe a libido. Sem raciocinar, desabotoou o primeiro botão das calças, o segundo, o terceiro e o quarto, passou a mão pela língua e enfiou-a entre as pernas.

Era a primeira vez que se masturbava na vida.

Era a primeira vez que sentia essa necessidade.

Brincou consigo mesma alguns segundos, mas depressa se apercebeu de que não estava excitada como queria. Apesar de ninguém entrar pela porta há largos minutos e de não ouvir passos na sua direcção, a verdade é que não podia garantir a si mesma que isso não viesse a acontecer e então achou por bem levantar-se, deixar a torneira aberta para despistar alguns gemidos, e trancar-se num dos compartimentos individuais da casa de banho. Despiu as calças, pô-las em cima da sanita, abriu a camisa, puxou o soutien para baixo e, de pé, permitiu-se gozar.

Já não estava sozinha. Estava com ele.

Fechou, novamente, os olhos e recuperou o sonho.

Já não eram as mãos dela. Eram as mãos dele.

Aconchegada à parede, com a cabeça tombada para a direita, os longos cabelos pretos a acariciarem-lhe as auréolas do peito, as pernas flectidas e a realidade a levá-la onde o sonho a tinha deixado, começou a tocar-se com uma mão enquanto a outra lhe afastava os lábios inferiores e expunha o clitóris. Molhada, deixou escorregar dois dedos para dentro dela e, durante minutos, entreteve-se, numa espécie de carrossel, entre a penetração, o toque no ponto G de "Gutiérrez" e a estimulação clitoriana.

Por vezes, abria os olhos e parava. Não ouvia ninguém. Podia gemer.

E gemia, com a cumplicidade da água.

Sentou-se, então, no tampo da sanita, forrado pelas calças, deitou a cabeça no autoclismo, marcado por antigos cigarros acesos, e acelerou o movimento de penetração quando decidiu que já não queria manter a porta fechada ao orgasmo.

Foi assim que escolheu vir-se e veio-se ao vê-lo possuí-la no capot do carro.

Precisou de alguns segundos para se recompor.

Já não se lembrava da sensação arrebatadora, das pernas se esticarem e dos pés se deformarem por cada um dos seus dedos escolher uma direcção diferente.

Teve saudades e emocionou-se, teve câimbras e riu-se, mas saiu da casa de banho com a torneira aberta e a certeza de que aquele já era, definitivamente, um dia especial.
 
Quando chegou ao quarto, deparou-se com uma pequena assembleia de médicos e enfermeiras, à volta da cama de João. Independentemente do que ela fizera dele e com ele, a verdade é que o rapaz não havia saído, por um único segundo, do mesmo sítio. Continuava deitado, sem autonomia aparente.

in "A Dança da Vida", 2010

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