quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ONDE ESTÁ A TUA CRIANÇA INTERIOR?


"–A felicidade está ao alcance de todos, à vista de todos.

Tomás arregalou os olhos. Estava de novo a ser alimentado pelas suas palavras.

Quando nascemos, Deus oferece-nos esse tesouro. Na infância todos nós sorrimos, mas à medida que o tempo vai passando e a idade avolumando, o ser humano, sem excepção, tem tendência natural para perder essa alegria, derrotando-se com doenças, materializando a vida, rotinando o seu dia-a-dia sem objectivos e impondo regras de viver, com as quais não obtém frutos e que apenas o levam à autodestruição. Então, Deus concede-nos uma segunda oportunidade. Uma simples folha branca, vazia, insípida, onde podemos escrever o nosso maior sonho, aquilo que já fomos e gostaríamos de voltar a ser. Muitos não têm a coragem de assumir esse gesto, considerando-se maiores do que Deus, esquecendo-se de que nenhuma onda é maior do que o mar e nenhuma duna é maior do que o Deserto. Nenhum homem é superior a Deus. Ele é o criador.

Outros começam por escrever, mas a meio ficam sem palavras, desistem e rasgam a própria vida. Não têm ambição, não têm desejos, nem sonhos. Consideram-se pessoas que têm de viver. Casaram, tiveram filhos, vivem numa família desagregada, sem amor, e apenas estão juntos porque dependem um do outro. Nas noites em que caem na realidade e vêem de perto a frustração das suas vidas, saem com outros homens, outras mulheres, têm sexo, voltam para casa e deitam-se na mesma cama, como se nada fosse, pois sabem que assim será para sempre. Ficam aquém da vida, indiferentes a tudo o que, realmente, a define e que nunca tiveram a coragem de escrever.

Por fim, existem os especiais, aqueles que como nós não estão satisfeitos com o que são e sonham em ser mais alguma coisa. Felizes, como já o foram enquanto crianças. Se já o fomos porque não o podemos voltar a ser?

Tomás não sabia se haveria de interpretar aquela última frase como uma questão para ele responder e então, discretamente, assentiu com a cabeça. Não queria interromper a mulher. 
A mulher, depois de uma inspiração prolongada, continuou:

Para as crianças não existe sofrimento, mentira ou tristeza. Passeiam alegremente pela vida com uma pureza e leveza indescritíveis. Também nós, adultos, podemos vivê-la assim, se nunca nos esquecermos que dentro de nós ainda habita essa mesma criança, saudável, sonhadora e feliz."
 
in "Carta Branca", 2006

2 comentários:

  1. "A felicidade está ao alcance de todos, à vista de todos".
    Felizmente tenho muitos momento felizes na vida, mas sonho sempre mais e mais.
    A vida é um caminhar para a realização dos nossos sonhos, das nossas paixões. Obrigado pela partilha.

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  2. Gustavo, o teu livro "Carta Branca" é o único que não tenho, ainda não consegui comprar,"diz" estar "Esgotado ou não disponível".
    Será que vai haver reimpressão?
    Obrigado,
    Ana

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