quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O HOMEM QUE SE IMORTALIZOU CEDO DEMAIS


“Meu Amor,
escrevo estas palavras sem saber se algum dia chegarão a ti, quando chegarão a ti ou se estarei vivo quando as leres.
Durante toda a minha luta pela independência do meu país nunca duvidei, por um instante sequer, do objetivo sagrado, pelo qual eu e os meus colegas sacrificámos as nossas vidas. O que nós desejamos para o nosso país é o direito a uma vida honrada, uma dignidade sem máculas e uma independência sem restrições, mas os colonialistas e os seus aliados não desejam o mesmo. Eles corromperam alguns amigos nossos, filhos da nossa terra, que acabaram por nos trair e tornar-se nossos inimigos. Nós não estamos sozinhos.
Todos os povos livres de qualquer canto do mundo estarão sempre ao lado do nosso povo.
Acredito que não abandonaremos a esperança, até que chegue o dia em que não existam mais colonizadores nem mercenários no nosso país. Para os nossos filhos, que talvez nunca mais voltarei a ver, desejo que lhes seja dito e ensinado que o nosso futuro é bonito, para que eles, por sua vez, possam ensinar aos seus filhos e aos seus netos a gloriosa história da independência de Angola. Espero que cada um continue a lutar, até completar esta sagrada missão de reconstruir a nossa independência e a nossa soberania como estado independente porque sem dignidade e sem independência não há homens livres. Nenhuma brutalidade, mau tratamento ou tortura conseguirá me forçar a pedir misericórdia, porque eu prefiro morrer com a cabeça levantada, com a minha fé inabalável e com a confiança profunda no destino do meu país do que viver na submissão e desprezar os meus sagrados princípios.
Eu sei que um dia a história contará a emancipação de todos os países livres do colonialismo.
África vai escrever a sua própria história e será de norte a sul do Sahara, uma história de glória e dignidade. Eu sei que o meu país, tão sofredor, saberá como lutar contra a ditadura e defender a sua independência e a sua liberdade. Eu sei que será posto um fim à supressão do pensamento livre e que todos os homens irão usufruir de total liberdade como prevê a declaração dos direitos do homem. Eu sei que o fim desta guerra surgirá e aí este povo será liderado pela paz do coração e não pela paz das armas.
Eu sei tudo isto. Só não sei se vou cá estar.
Não chores por mim, meu Amor.”

in "Os Laços que nos Unem", 2008 

1 comentário:

  1. Obrigada Gustavo ,

    "Viajei" um pouco pelas minhas emoções... «Sabe a abraço na alma».

    Angola ... Tantos laços que nos unem.

    " Só não sei se vou lá estar ..."






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