segunda-feira, 8 de outubro de 2012

DO DESERTO À FELICIDADE


"Na manhã seguinte, um raio de sol derrotou a noite e deu vida a um amanhecer diferente, um amanhecer no deserto.
Tomás levantou-se para abrir o que restava da pequena janela que o limitava do resto do mundo e deparou-se com uma imensidão de terra que nunca presenciara. O chão parecia ser banhado a ouro. No céu, azul-turquesa, planava uma bola de fogo e não se percepcionava um único som.
Sentia-se bem ali.
Estava sem nada nem ninguém, numa casa feita de barro e palha, orientado pelas estrelas da noite e, naquele momento, pelo dourado do sol.
Quando saiu do quarto, a mulher já o esperava, sentada numa imponente cadeira de madeira. Sorridente, como sempre, pediu-lhe que se sentasse numa almofada que estava à sua frente. Tomás agachou-se, cruzou as pernas, ergueu o queixo e aguardou, ansiosamente, pela sua voz.
Minutos depois, a mulher disse as primeiras palavras:

Estou muito feliz por aqui teres chegado.

Tomás concordou. Também ele se sentia feliz por ali estar.

Tal como tu, também eu peguei num papel e numa caneta e escrevi uma carta há muitos anos atrás.
É fascinante como um simples papel, onde rascunhamos desejos e sonhos, nos permite alcançar o maior segredo da vida: Ser feliz! O nosso maior tesouro, a felicidade, é a capacidade de querermos algo melhor para nós e lutarmos por esse risco, pela incerteza do que temos de passar até lá chegar. Quem não arrisca, pura e simplesmente, não vive. Deus dá esse tesouro a todos, mas apenas alguns têm a coragem de o utilizar. Outros, infelizmente a grande maioria, acomodam-se com o que cai do céu e passam pela vida sem se aperceberem realmente do que ela é. Assim, vivemos todos em escalas diferentes. E tu estás aqui para ampliar a tua porque chegaste ao topo daquela que te foi dada e não te sentiste satisfeito. Quiseste mais, quiseste ser verdadeiramente feliz, quiseste viver e chegaste à maior conclusão do mundo: que apenas dependes de ti para ser feliz. E esse é o motivo do meu contentamento.

Tomás ouvira-a atentamente, como se de um aluno se tratasse, que pela primeira vez vai à escola para aprender a ler. Mas havia uma coisa que ainda não entendia e sem se conter mais um único segundo, perguntou fulminantemente:

Como é que sabe o meu nome?

Como te disse ontem, estava à tua espera. Há sempre alguém que nos espera em qualquer parte do mundo. Quanto ao resto, não percas tempo a tentar justificar todos os acontecimentos da tua vida. Nela, existem coisas que apenas devemos aceitar. As justificações ficam para os cépticos, para os homens da ciência. Nós acreditamos em Deus e nenhuma experiência a que Ele nos permite ter acesso tem uma justificação teórica, porque Ele é essência, amor e espírito. Portanto, não existem coincidências. Existem razões e motivos para que Ele nos tenha cruzado e tu estejas comigo, neste momento.

E vai dizer-me o segredo de como ser feliz?

Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance. Mas a viagem é tua, a experiência foste tu que escolheste. Eu apenas oriento o que tu já começaste.

E para onde devo seguir? - Estava inquieto e ansioso por respostas.

Estás no deserto. Todos os caminhos são diferentes e todos são válidos porque todos se traduzem em conhecimento. Deves seguir o teu coração. Ele é o dono de todas as respostas que pretendes alcançar.

Tomás parou por instantes, dirigiu o olhar para uma janela que estava atrás de si e com um sorriso vazio perguntou:

Mas com quem devo aprender, se tudo o que vejo é areia e céu?

Por momentos sentiu-se perdido e assustado.

A mulher apercebeu-se mas ignorou. Sabia que Tomás era especial, que não havia razões para ele se preocupar e então respondeu:

Com todos aqueles com quem te cruzares. Vais ter acesso a pessoas diferentes, que caminham em tempos diferentes. Umas perdidas há anos, outras acabadas de chegar, como tu. Cada uma tem o seu processo mas todas estão aqui pelo mesmo motivo. Querem ser felizes!

Anos?

Sim. Por isso te disse para ouvires sempre o teu coração, ele não te engana. O que se passa com essas pessoas é que deixaram de acreditar e por isso caminham em círculos, perdidas nestas areias.

Mas como devo fazer para ouvi-lo? Como vou saber se caminho na direcção certa?

As dúvidas eram mais que muitas.

É simples - tentou acalmá-lo - Basta questionares o teu “Eu” interior e saberás o que precisas de saber. A primeira resposta que obtiveres é a resposta do teu coração. A segunda é uma resposta equacionada, pensada, que na maioria das vezes traduz medo. E ter medo no deserto é namorar a morte, é caminhar em círculos."
 
in Carta Branca, 2006

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