quinta-feira, 4 de outubro de 2012

DANÇA... ENQUANTO PODES!


 
"As mãos.
Incapazes de se mexerem e reagirem ao mundo. Indiferentes à voz por mais doce que fosse.

No quarto, de um lado para outro, silhuetas etéreas tombavam aos cantos após esmagarem-se nas paredes brancas que aprisionavam a realidade. Umas desistiam ali e desapareciam, outras erguiam-se de novo, mas como moscas incapazes de perceber o vidro, voltavam a esbarrar no tijolo pintado e a cair até serem vencidas pelo cansaço. Era a coreografia do impalpável, a ópera dos mortos vivos e a causa maior para a inquietude de quem era feito de carne e osso.

João só se mexia quando era manuseado pelas enfermeiras. Eram elas que o mudavam de uma posição para a outra evitando-lhe não só o aparecimento de úlceras na pele como também a inexpressão total, pois de ventre para cima ou em pose fetal, com os braços ao longo do corpo, cruzados ou em vogue, renascia dele, após a meiguice feminina, uma graciosidade inata que enchia o quarto e concedia aos acamados a oportunidade de serem objecto de estudo de uma qualquer arte plástica. Além disso e como se tal não fosse suficiente, ainda lhe massajavam os membros à procura de uma sensibilidade qualquer que estivesse escondida entre as emoções e o egoísmo, limpavam-lhe os líquidos e os sólidos, davam-lhe banho, faziam-lhe a barba, cortavam-lhe as unhas e prometiam-lhe o melhor aspecto possível para receber as visitas. Os mais optimistas diziam que estava num spa, os outros, que o reconheciam como um animal de palco e um bailarino em ascensão, não diziam mais do que aquilo que viam: um vegetal, uma marionete encaixotada.
Ladeado por um Cristo redentor na cruz e por um ventilador que respirava por ele, permanecia numa profunda letargia vinte e quatro horas por dia, sem demonstrar a mais pequena hesitação que fosse entre o mundo de cá e o mundo de lá. A dedicação das enfermeiras era tão incondicional como a do sol que todas as manhãs lhe nascia pela janela mesmo sabendo que as possibilidades de ser visto eram ínfimas e tão pura como a da família que entre carícias, conversas e presentes nada esperavam em troca apesar de secretamente e bem no fundo de cada um, todos sonhassem com um sinal, uma resposta que fosse perceptível, uma vontade de vê-lo voltar a dançar a dança da vida."

in "A Dança da Vida", 2010

1 comentário:

  1. acabei de o ler e estou sem palavras!!!!!!!! simplesmente fantástico!

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