segunda-feira, 22 de outubro de 2012

CHUVA


A Chuva, precipitação consagrada pelos deuses para que os mortais possam sentir o céu. Unguento divino que atrapalha os atrapalhados e exalta os despertos. Choque de nuvens, dança de línguas, confronto dos corpos. Queda de água, câmbio de saliva, suor gota-a-gota.
A Chuva, bilhete da paixão. Pranto intensificador de cheiros que multiplica as pessoas e eterniza as histórias. Quem não se lembra daquele beijo entre a intempérie? Quem não se recorda daquele “um no outro” ao relento entre o ribombar dos trovões? Quem se esquece daquele mergulho em profundo oceano onde pedaços do firmamento se despenhavam no azul celeste da água? 

A Chuva, orgasmo da natureza. Tesão dos selvagens, dos vivos e dos afirmados. Matéria-prima de Deus para que os homens aprendam a ser e a sentir, a gemer e a rugir, a estar e a respirar. Lareira acesa e quatro paredes submissas, bancos deitados num carro naufragado e quatro janelas transpiradas. Coreografia de mariposas.

A Chuva, espectadora das mais belas cenas de amor. Torrencial como o desejo, molhada como elas, viril como eles. Rajada de sedução.
A Chuva, miudinha atrevida e mulher galopante, deusa da paixão e da beleza. Afrodite.

A Chuva, sempre a Chuva.
E nós, sempre nós… debaixo dela, entre ela e com ela.

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