quarta-feira, 31 de outubro de 2012

AMANHÃ NÃO, AMANHA-TE!


Quantas vezes já disseste que amanhã é que é o dia em que vais deixar de fumar, ter atenção à alimentação, procurar emprego naquele sítio, fazer exercício físico, dizer aquilo que pensas a determinada pessoa, ir ao médico fazer exames de rotina e por aí adiante? Estás-te a rir? Eu não achava muita graça.

Quando o dizemos, há algo em nós que, realmente, acredita ou nos faz querer acreditar naquela verdade e, como tal, tendemos a abusar naquelas horas que antecedem o amanhecer, por aquele ser o último dia em que nos vamos poder deleitar com o sabor dos cigarros, da comida, do sedentarismo do sofá e da falsa paz por ainda não termos de confrontar determinada pessoa. Ora, essas horas são tão intoxicantes que, no dia seguinte, quase nunca acordas com a destreza suficiente para agir e mesmo que o consigas, a manhã é tão ameaçadora que, ao primeiro contratempo, (chuva, trânsito, a camisa que não está passada a ferro, o cabelo que está eriçado, o cinto que não encontras, um telefonema chato…) vais fugir do que havias objectivado e refugiar-te, novamente, no teu problema. A soma destas tentativas e a multiplicação dos fracassos, sem dares conta disso, vão alimentando a tua frustração e a tua desilusão até que, por fim, a catástrofe irrompe da tua indiferença e tenta puxar-te para as trevas. Apanhas um susto, para alguns o suficiente, para outros o fim.

E, então, o que é que está na origem da inacção? Tu, sempre tu. O que acontece é que na grande maioria das vezes e para já não ouvires os outros falarem dos prejuízos que irás arrecadar se continuares a viver assim ou assado, dizes “amanhã” para satisfação dos chatos e, assim, pode ser que eles se calem. Quando assim é, passas a viver na mentira e às escondidas, enganando o mundo inteiro menos o essencial, a tua consciência. Outras vezes, referes o “amanhã” por alguns conselhos que ouviste e, no momento, te fazem sentido. Quando assim é, passas a acreditar no que te disseram como uma verdade tua porque, por segundos, confundes o teu modelo de mundo com o daqueles que te aconselharam. Não é o mesmo. Perceberás logo pela manhã. E tudo isto tem este peso e esta carga dramática, porquê? Porque a verdade é que, raramente, estás convicto de que és capaz, tens coragem ou que desejas, realmente, essa mudança e, porque assim é, crias a ilusão de que amanhã ou um dia destes é que será o teu grande dia, o primeiro do resto da tua vida. Naturalmente, acabas por viver uma vida inteira assim, projectando para o dia seguinte, tudo o que estás longe de ser capaz no momento. Não conseguirás avançar desta maneira.

Amanhã, nunca será o dia indicado para começares nada. Apenas “Agora” podes definir o resto da tua vida, alcançar tudo o que desejas e tudo o que é melhor para ti.



in "Arrisca-te a Viver", 2012

terça-feira, 30 de outubro de 2012

"S"ente e "T"erás a "O"portunidade "P"erfeita


A crise, parece-me a mim, é a nova caça às bruxas. A inquisição dos tempos modernos. Quem não fala nela, deve ser atirado para o fogo. Tornou-se numa religião tão fundamentalista que quem não acredita, não comenta nem investe o seu precioso tempo a reforçá-la ou a angariar mais medrosos para a referida seita, não merece o reino dos céus.
Constato isto em todo o lado, mas neste momento refiro-me, unicamente, a alguns comentários de gente abstracta no meu blogue que, talvez por não saberem quem são, nem sequer se identificam e me culpam e julgam por ter uma atitude tão positiva perante a vida. Em alguns deles, até me pedem para “acordar” desta vida “Zen” e olhar para o mundo real. Hilariante. Hilariante, mas, por outro lado, igualmente preocupante, pois a massa social ainda se rege por esta dor, legítima para uns, moleta para outros. Sim, para muitos, esta crise é a melhor invenção do mundo a seguir à roda, pois serve-lhes de justificação para a preguiça com que sempre encararam a vida. Preguiça emocional e das sensações. Mas é assim, quando não te mexes e dás as coisas como adquiridas, a vida vem e tira-te tudo para que, finalmente, te ponhas a mexer, a descobrir a tua capacidade de superação e, naturalmente, quem és. Mas enfim, e como estava a dizer, as suas palavras, incapazes de reconhecer qualquer tipo de mérito ou de expressar qualquer réstia de esperança, são de uma violência tão atroz, a mesma com que certamente culpam os outros pela vida que têm, e, sei eu, a mesma com que se tratam a eles mesmos quando estão sozinhos e não têm ninguém para culpar, que não lhes posso ficar indiferente. A ética diz-nos que devemos estender-lhes a mão, abraçá-las e reconfortá-las. Eu não. Eu estou-me nas tintas para a ética, assim como para a crise e para toda e qualquer religião que fomente a dependência e o medo nos homens.

Tenho 35 anos e só eu sei o meu percurso de vida, como tal, se eu fui capaz, os outros também são. Dar-lhes-ei a mão sim, e dou todos os dias, quando eles tomarem a iniciativa de a estenderem, nunca enquanto forem incapazes de acreditar em algo bom ou me atacarem seja de que forma for. A esses, elimino-os da minha vida, passo incólume e sigo desperto. Sim, desperto! Só os despertos podem ser felizes neste mundo. As vítimas serão sempre vítimas, marcha lenta a caminho do inferno.

Escrevo o que muitas pessoas adorariam ter a coragem de escrever e faço-o porque sou uma voz ativa, um exemplo de determinação e alguém que nunca vira a cara à luta, seja à minha, seja, e se mereceres, à tua, portanto podes atacar-me à vontade. O meu corpo é imune às tuas balas, aliás é ricochete e quem se fere és tu. Ainda mais.

Sigo o meu caminho. Sigo feliz. 

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Revista Zen - Novembro 2012


Não existe ninguém tão forte e tão bom como eu a cumprir objetivos.
Pode haver gente tão boa, mas melhor é impossível. E tenho um enorme orgulho em dizer-vos isto, em gritar-vos bem alto, e nos ouvidos, que consigo tudo o que quero e que nada nem ninguém me serve de justificação para eventuais falhanços. Eu não falho comigo e não falho porque me amo, porque me respeito muito, porque sei o que quero e não brinco no que toca a cumprir a minha missão.
O meu propósito é demasiado valioso para perder tempo a culpabilizar os outros, na preguiça ou à espera que a sorte mude. Aliás, eu só acredito na sorte depois do mérito e o mérito, esse atributo só ao alcance dos verdadeiros guerreiros, só se atinge por uma via: a da disciplina.
A minha experiência diz-me que um objetivo para ser bem definido deve primeiro cumprir um determinado número de requisitos, entre os quais: respeitar os meus valores, depender de mim e ser o mais específico possível, nomeadamente, ter pelo menos uma data definida e desafiante para a sua concretização. Claro está que não defino objetivos que possam ir contra quem sou, que não dependam de mim ou que não tenham um dia pré-definido com ousadia para os materializar e é por isso, por ser coerente com a minha missão, com as minhas paixões e porque sei que posso confiar em mim que concretizo 10 em 10, 20 em 20, 100 em 100. Sabes porquê? Sabes de onde vem este poder todo? Da minha capacidade de me autodisciplinar.
A disciplina não é e nunca será a matéria-prima, é o homem sujo e cansado que cava até a encontrar. No meu caso específico, e enquanto escritor, não é o livro pomposo e brilhante, são as horas intensas e desgastantes que passo sentado, à espera de um rasgo de inspiração. Neste momento encontro-me a escrever o meu quinto livro, e posso desde já adiantar que será um upgrade  do “Arrisca-te a Viver”, e tenho para mim definido que a data do seu fecho será no dia 31 de Dezembro deste ano. Coloquei este prazo em Junho passado e ainda não tinha escrito uma única linha, ou seja, restavam-me cerca de 200 dias para escrever pouco mais de 200 páginas. Desafiante, certo? Para tal acontecer e o objetivo ser cumprido, só saio do meu escritório depois de ter uma página de livro escrita por dia. E será que tenho sempre inspiração? Não, claro que não. Mas tenho sempre disciplina. A inspiração é a sorte depois do mérito de ser disciplinado por ousar sentar-me sem ideia nenhuma, por arriscar fechar-me em quatro paredes quando, lá fora, o sol convida a ir mais cedo para a praia.

Paz,

Gustavo Santos

domingo, 28 de outubro de 2012

ENVOLVE - ME


Envolve-me!
Aproxima-te nesta noite fria de madrugada rija e eleva-me aos trópicos do “Agora”, de volta a casa e a mim. Dá-me a mão e vem comigo.

Envolve-me nesse abraço quente que me deixa a mente dormente e o corpo impaciente. Ata os teus dedos nos meus, tricot de ternura, desliga os olhos e deixa-os ganhar vida até que a paixão os esmague uns contra os outros.

Acorda e deita-te comigo, espalha as mãos pelo meu corpo, torna-o teu, e revitaliza-me com o calor dos teus lábios para que o outono da minha boca possa voltar a sentir os graus do verão.
Envolve-me no édredon que é a tua pele para que eu não sinta mais a solidão da tua ausência. Descompõe-me na métrica das tuas palavras, versifica-me e depois despe-me com a audácia da tua prosa. Nua, despida como vim ao mundo, pronta para renascer e dançar, ainda que o único som que ressoe entre nós seja o eco de um gemido recente.

É tão bom quando sou tua. É quando sou mais minha.

Envolve-te com a humidade das minhas paredes e escorrega até mim. Ama-me, come-me ou simplesmente fica. Que bom é sentir o teu norte, que privilégio é ver-te desnorteado. Mais um beijo, cascata de saliva, mais um esgar de prazer. Ali ficamos.

 
Adormecemos, sem que nunca tenhamos dormido, pois o desejo não permite tal veleidade entre corpos apaixonados e, sem piedade ou temperança, pune-os com mais prazer. Restos de deleite são, então, expulsos dos ventres e a calma retoma.
Envolve-me na penumbra desse olhar fugidio, cúmplice e verde, ainda que o azul do céu ameace estourar com os estores da janela e transforme a nossa intimidade em dia. Olha mais uma vez. Grava-me. E outra. Fotografa-me. Acabou. Está na hora de voltar ao tempo.

Adeus.

sábado, 27 de outubro de 2012

GRATIDÃO (9)

 
"Querido Gustavo,

tive necessidade de te escrever pois, o que no dia 13 experienciei foi mais do que um workshop, foi mais do que esperei de mim - suplantou-me - e foi bom, muito bom mesmo!!!

Senti, e amei sentir!
Chorei, e foi inexplicavelmente confortante chorar!
Ri, sorri... senti ALEGRIA - que é dos valores que mais prezo em mim!

Toda esta partilha, com uma "alcateia" que adorei conhecer, foi decisivo para a pessoa que quero ser AGORA!
Obrigada por aceitares a missão de agitares consciências e inspirares pessoas pois, neste dia, eu fui uma dessas privilegiadas na qual deixaste uma semente e que, assim, decidiu deixar de correr atrás do "rebanho" e de viver no marasmo que sempre me permiti acreditar ser a "VIDA possível" ou o "possível na VIDA"!

Agitaste-ME e inspiraste-ME! És por isso, enquanto palavra e luz que emanas, parte de mim e da minha vida para sempre, pois são estes que quero a acompanhar e a potenciar os meus sonhos. Espero que assim o permitas.
Ainda tenho um bom percurso a fazer, mas aceito este desafio pois tenho a motivação e a razão necessárias para o conseguir - o EU e o AGORA!
 
Bem hajas."

Susana

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

UM MICROSSEGUNDO, UMA VIDA INTEIRA

 
Os melhores momentos da minha vida foram e são passados entre abraços, passos de dança e pessoas. Esta foto, apesar de volvida mais de uma década, ilustra isso na perfeição. Ah, e para quem não tinha ainda reparado, eu sou aquele do lado direito com uma fita estranha na cabeça e um género de caracoletas a sair do tacho. Sim, estava extasiado e feliz. Estava a viver o meu sonho, pelo qual havia abdicado de tantas regras e padrões sociais, de tantas pessoas e crenças limitadoras. Estava feliz. Não merecia eu outra coisa.

Este momento ficou gravado na minha história, pois além de estar abraçado a alguns “manos” que soube e me souberam conquistar ao longo de tantos anos de entrega, paixão e compromisso, também relata a homenagem que, juntos, fizemos àquela que considero ter sido a melhor bailarina de Hip-Hop que alguma vez conheci. A Mónica. Como é meu timbre, e sempre que alguém me inspira e depois nos deixa, acabo por trazer essa pessoa de volta à vida através de personagens dos meus livros. Assim foi com ela, pois apesar de ter partido cedo demais, deixou-nos a maior herança de todas quando nos pediu, já na reta final do seu ar de graça, para ninguém chorar no seu funeral e, se possível, que todos dançássemos até onde a emoção nos permitisse. Assim foi, diz quem esteve no funeral. Eu não fui. Acredito na alma, não preciso de me despedir do corpo.

Mas enfim, servem estas linhas para ilustrar mais um microssegundo da minha bela vida onde sempre batalhei pelos meus sonhos, onde sempre enalteci os afectos e prestei as merecidas homenagens às verdadeiras pessoas que me ensinaram que nada é mais importante que estar vivo e sabê-lo.
Sou feliz!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

DANÇA PARA VIVER


- Do que é que gostas mais quando estás a dançar?

- De ter os olhos abertos e não ver nada. De não pensar. De viver o momento. De sentir que domino o espaço e o tempo e que sou, exactamente, o que deveria ser. Uma mulher poderosa, dona de um poder absoluto, uma deusa digna de ser contemplada, capaz de possuir quem quer... e possuo, mas o prazer é todo meu. Eu toco sem tocar e nunca sou tocada. O que os outros conseguem alcançar é apenas o fogo de artifício que explode de cada canto meu e o êxtase do meu gozo. Os olhares na minha direcção alimentam-me. Eu não os vejo, mas sinto-os presos a mim como se de mim dependessem. E eu sacio-me disso... puro capricho.

A totalidade... não há mente, apenas emoção.

Sou um turbilhão de energia, uma onda única e contínua onde o movimento impera e habita. O meu coração, juro-vos, pulsa consoante as diferentes batidas de cada música. O corpo... adoro vê-los coreografados e limpos, como uma orquestra afinada. É paixão o que eu sinto. É de amar que eu gosto.

Eu sei que o que acabei de vos dizer pode roçar o foleiro, mas o que vocês me pediram foi para falar de uma fusão perfeita que não faz parte deste mundo, logo, não dá para verbalizar muito bem.

Deixa-me só partilhar uma última coisa convosco. É uma ideia muito minha. A humanidade não tolera a hipótese da plenitude enquanto ela se encontrar fora do seu alcance, mas a verdade é que eu a sinto quando danço... para mim é fácil atingir a mítica felicidade com uns simples ténis calçados, pessoas para os meus olhos e uma música de fundo.

in "A Dança da Vida", 2010

terça-feira, 23 de outubro de 2012

TRÊS SEGUNDOS PARA AGRADECER


"- Quero propor-te um jogo. - Disse-lhe o avô, sem esperar que as lágrimas do neto secassem.                                                                                                                                          
- Um jogo? - Perguntou Diogo, depois de limpar a comoção do nariz.                                                                                                                                    
- Sim. É muito simples. Tem apenas uma regra que te dá o direito de desistires quando quiseres, e um prémio valiosíssimo. Alinhas?                                                                                                                     
- Claro.
- Muito bem. Então, olha para a tua mão e com a ajuda dos dedos conta até três.                    
Diogo arregalou os olhos, sem perceber a intenção do avô, mas como lhe tinha dito que alinhava no jogo dele, contou até três em voz alta com os olhos centrados nos respectivos dedos que ia levantando. Primeiro esticou o indicador ,depois o médio e por fim o anelar, mas nada de especial acontecera a não ser o silêncio imperativo do avô.             
- Já está. - Disse-lhe, três segundos depois de ter iniciado a contagem.                                      
- Sabes o que aconteceu enquanto fazias a tua contagem?                                                        
- Não aconteceu nada. - Respondeu-lhe, depois de olhar para os lados como que à procura de qualquer coisa.                                                                                                                    
- Morreu uma criança em África vitima de pobreza extrema.                                                        
- O quê? - Perguntou-lhe, sem querer perguntar nada, apenas chocado pela introdução do tema e pela naturalidade com que o avô tinha dito o que dissera.                                        
- Lá a ciência é exata e a numerologia não falha. A cada três segundos eleva-se uma alma. E sabes o que representam essas crianças?                                                                         
Diogo ainda não estava em si. Não conseguia entender quais as intenções do avô em abordar uma matéria tão pesada depois de uma manhã tão auspiciosa e por isso, limitou-se a responder com a cabeça, dando-lhe a entender que não, não sabia o que representavam aquelas crianças.                                                                                                  
- Representam a importância que devemos dar às nossas próprias vidas. São almas puras que se ofereceram para justificar que nada é permanente e que ninguém sai daqui vivo. São anjos encarnados, vestidos pela miséria, que ao partirem nos obrigam a reavaliar o que é realmente importante nas nossas vidas. Se o medo ou o amor, se o passado ou o presente, se a partida dos que amamos ou a continuidade da nossa estadia.                                    
Diogo começou, finalmente, a entender o propósito maior do avô. Queria prepará-lo para uma eventual recaída e muni-lo de factos reais que o fizessem sobrevalorizar, acima de tudo, o privilégio que tinha em ser como era, sem se deixar levar por coisas de importância menor.                                                                                                                                
- Essa matemática da soma dos três segundos é a mais básica que aprendi até hoje mas, também, a mais difícil de meter na cabeça.                                            
- O jogo acabou, campeão. - Concluiu o avô Santos, mantendo a mesma serenidade durante todo o breve discurso.                                                                                                                  
O som da madeira a arder tomou o direito à palavra e nos dois minutos seguintes à conclusão do jogo apenas o seu contorcer se fez ouvir na sala, porém sem a atenção de nenhum dos dois. As lascas estalavam, saltavam e esmoreciam em cinza mas nem um nem outro contemplavam o seu espectáculo, perdidos que estavam, por diferentes razões, na dura realidade que havia sido dita. E só depois de duas tentativas frustradas que lhe ficaram a meio da garganta, é que Diogo lá arrancou coragem do seu peito e ganhou ar para falar, questionando imediatamente o avô:
- Já te apeteceu alguma vez contar até três e desaparecer? - Perguntou-lhe, sabendo que aquela era uma pergunta de risco, mas que precisava de lhe fazer, para depois dar também a sua resposta e assim ver-se livre do sentimento de culpa com que havia ficado depois da conversa. 
- Já. Já me apeteceu algumas vezes.                                                                                             
- A mim também. - Disse, quase em cima do que o avô tinha dito, e por qualquer razão sentiu-se mais leve.                                                                                                                         
O avô Santos, apercebendo-se de um legítimo nervosismo do neto, tentou acalmá-lo, levantando-se da sua cadeira e pondo-se em posição de cócoras ao lado da poltrona onde Diogo estava sentado, dando-lhe a mão:
- Não há problema nenhum em já teres pensado nisso, campeão. O importante, é sempre a partir da data em que tomas consciência. Eu próprio, até há algum tempo atrás, tinha muita vergonha de assumir, perante mim mesmo, a decepção de determinados pensamentos e quando me fizeram este jogo, senti exactamente o mesmo que tu. Percebi que, em diferentes fases da minha vida, estava a multiplicar demasiadas vezes aqueles três segundos agarrado a medos criados por mim, a erros do meu passado e à consecutiva falta de alguém. Percebi que tudo isso não me permitia tomar as rédeas da minha vida nem me deixava sentir feliz por poder controlá-la, ao contrário daquelas crianças. Para te ser sincero, muitas morreram-me nas mãos sem que eu lhes desse o devido valor, por estar mais preocupado com coisas sem importância, mas agora já as lavei e cada uma que se eleva, merece o meu sorriso e a minha gratidão. Foi, também, graças a elas que aprendi a amar-me e esse é o prémio mais valioso que podemos receber.                                                                                                                         
- Obrigado por teres percebido avô. Estava a fazer um esforço enorme para aceitar a morte do Meia-leca, mas agora vai levar menos de três segundos.                                                                                
- Eu sei. Tu és um verdadeiro campeão."

in "Os Laços que nos Unem", 2008                                                                                        

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

CHUVA


A Chuva, precipitação consagrada pelos deuses para que os mortais possam sentir o céu. Unguento divino que atrapalha os atrapalhados e exalta os despertos. Choque de nuvens, dança de línguas, confronto dos corpos. Queda de água, câmbio de saliva, suor gota-a-gota.
A Chuva, bilhete da paixão. Pranto intensificador de cheiros que multiplica as pessoas e eterniza as histórias. Quem não se lembra daquele beijo entre a intempérie? Quem não se recorda daquele “um no outro” ao relento entre o ribombar dos trovões? Quem se esquece daquele mergulho em profundo oceano onde pedaços do firmamento se despenhavam no azul celeste da água? 

A Chuva, orgasmo da natureza. Tesão dos selvagens, dos vivos e dos afirmados. Matéria-prima de Deus para que os homens aprendam a ser e a sentir, a gemer e a rugir, a estar e a respirar. Lareira acesa e quatro paredes submissas, bancos deitados num carro naufragado e quatro janelas transpiradas. Coreografia de mariposas.

A Chuva, espectadora das mais belas cenas de amor. Torrencial como o desejo, molhada como elas, viril como eles. Rajada de sedução.
A Chuva, miudinha atrevida e mulher galopante, deusa da paixão e da beleza. Afrodite.

A Chuva, sempre a Chuva.
E nós, sempre nós… debaixo dela, entre ela e com ela.

domingo, 21 de outubro de 2012

A"PESSOA"-TE


Reza a minha história que o reencontro das almas não pressupõe lógica e muito menos hora marcada. Por vezes, basta um dedo tocado, uma palavra perdida, uma fotografia ao longe, um silêncio ou a cumplicidade de um sorriso para despoletar toda a magia em que acreditávamos quando éramos crianças. O amor é, imediatamente, a seguir.

Sou apaixonado por pessoas. Descobri esta minha paixão com o avançar dos anos, da experiência, mas, acima de tudo, com a minha curiosidade e com a minha tremenda capacidade de entrega. Não há forma de conhecer, verdadeiramente, alguém e de identificar uma alma se não houver uma entrega mútua, uma sintonia conquistada. É apaixonante assistir aos diferentes momentos de cada um, desde a vulnerabilidade à convicção, do riso às lágrimas e do medo ao prazer da paixão e do amor.
Sim, entreguei-me a muita gente e das mais variadas formas. Com algumas recordei tempos ancestrais, é maravilhoso quando se está com alguém e não sentimos necessidade de explicar a nossa maneira de ser e de estar ou os nossos silêncios, com outras, enfim, aventurei-me, ri e chorei, aprendi sem nunca desaprender, ainda que por vezes tenha doído.   

Identifico, nas pessoas, um outro aspecto que me comove e que me eleva o elogio. Sempre que duas pessoas dão a mão, e agora não me refiro a gente apaixonada que caminha pela praia mas sim ao laço que a partir desse momento as une, algo está para nascer. Algo com uma força maior, capaz de conquistar mais em menos tempo, uma luz mais intensa, capaz de alumiar os mais desesperados, e uma onda de ação, capaz de monopolizar mais e mais pessoas rumo a um objetivo. Uma mão dada pode gerar um imenso cordão humano e nada tem tanto poder como um conjunto de gente com os mesmos valores e as mesmas convicções. Apaixona-me esta capacidade que nós temos de mudar a história do mundo, de contribuir para com as vitórias dos outros, de assistir ao que já inventámos em prole da nossa espécie e como temos progredido enquanto parte de um todo. Já imaginaste quantas pessoas têm sido ajudadas e dirigidas porque um dia tu ou alguém que conheças decidiu dar a mão a outro alguém, juntar forças e agir? É maravilhoso.

in "Arrisca-te a Viver", 2012




 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ABRAÇA, SORRI E DÁ A MÃO


Encontro num abraço, a cápsula do tempo. Não deste tempo, de outros, em que sendo os mesmos éramos de aspecto diferente. O afecto proporciona-nos isso mesmo, viagens ancestrais, laços eternos e momentos que perduram. É a mais íntima das intimidades, a anos-luz do beijo e do sexo e, talvez por isso, a menos recorrente. Nem sempre te dás a conhecer quando beijas alguém e nem sempre te entregas na cama, mas num abraço, não há como não fazê-lo, és tu no teu todo. Naturalmente, refiro-me a verdadeiros abraços, àqueles, sem pancadinhas nas costas, em que os peitos estão um contra o outro e com o outro, onde deixa de existir passagem de ar entre os corpos e as almas acoplam. Este abraço é inesquecível. A corrente de emoções é tão forte que o amor se faz ali mesmo, quer estejamos sozinhos ou no meio de uma multidão.

O beijo e o sexo é uma coisa de corpos, alimentam o nosso apetite, o abraço é assunto da alma, via verde entre dimensões. No abraço temos, de facto, a oportunidade de conhecer, verdadeiramente, as pessoas, mas isso só acontece porque elas aceitam assumir a sua vulnerabilidade, o seu cansaço, as suas frustrações e todas as desilusões que lhes pairam na cabeça. Onde é que já se viu isso na cama? Não se vê. Porquê? Porque o ego não deixa. O abraço é, assim, uma espécie de confessionário, onde as pessoas se convertem aos outros e procuram ajuda, direcção e paz.

Queres, efectivamente, conhecer alguém? Abraça. Mas nem só de abraços se faz o afecto.

O afecto é a linguagem do silêncio e no silêncio mora tudo o que não cabe nas palavras. Um simples olhar pode alterar o estado de uma pessoa, pode levá-la a pensar que é aceite, que não está sozinha nem perdida, que afinal há vida para além da sua. Um sorriso tem o mesmo poder, mas é mais contundente. Promove a ação, a aproximação entre as pessoas, a curiosidade de conhecer. Dar a mão. Tantas vezes te falo nisso. Duas mãos abraçadas é sempre o princípio de qualquer coisa. Afinal de contas, tocamos primeiro com o que está mais à mão, certo? A energia que flui de uma mão para a outra consegue amenizar bloqueios, derrubar preconceitos, apaziguar medos e mergulhar a pessoa num mar de confiança, estima e segurança que jamais experimentara. Não me refiro à mão dada dos namorados, refiro-me, sim, àquela que vem de onde menos esperas e te diz para teres calma, para estares atento e que nada nem ninguém te fará mal.

O afecto é magia.

Tanto promove o reencontro das almas, como o encontro dos homens. É muito para lá da comunicação, mais intenso e verdadeiro, menos composto e confuso. É o que é e é tanto. Somos nós abraçados, de mão dada ou num cafuné, são os nossos olhos, o nosso sorriso. É o nosso silêncio, o lugar onde nos podemos redimir e ganhar coragem. O ponto de encontro com o melhor da vida.


in "Arrisca-te a Viver", 2012

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

TOCA - TE!


Silêncio. Só o correr da água e o tilintar das lágrimas na porcelana.

Cansada e sem respostas, encostou-se à parede e deixou-se escorregar até ficar de cócoras. Aguentou-se assim alguns minutos mas depois, os tornozelos cederam, a ganga vincada pela revolta das unhas tocou o chão, as pernas abriram e ali ficou, sentada, sem que ninguém entrasse, sem ninguém com quem partilhar a sua mágoa nem o seu sentimento de injustiça.

Sozinha e desengonçada, entre quatro paredes brancas, uma torneira aberta e um pedido concreto do corpo, fechou os olhos e sentiu um calor masculino invadir-lhe a libido. Sem raciocinar, desabotoou o primeiro botão das calças, o segundo, o terceiro e o quarto, passou a mão pela língua e enfiou-a entre as pernas.

Era a primeira vez que se masturbava na vida.

Era a primeira vez que sentia essa necessidade.

Brincou consigo mesma alguns segundos, mas depressa se apercebeu de que não estava excitada como queria. Apesar de ninguém entrar pela porta há largos minutos e de não ouvir passos na sua direcção, a verdade é que não podia garantir a si mesma que isso não viesse a acontecer e então achou por bem levantar-se, deixar a torneira aberta para despistar alguns gemidos, e trancar-se num dos compartimentos individuais da casa de banho. Despiu as calças, pô-las em cima da sanita, abriu a camisa, puxou o soutien para baixo e, de pé, permitiu-se gozar.

Já não estava sozinha. Estava com ele.

Fechou, novamente, os olhos e recuperou o sonho.

Já não eram as mãos dela. Eram as mãos dele.

Aconchegada à parede, com a cabeça tombada para a direita, os longos cabelos pretos a acariciarem-lhe as auréolas do peito, as pernas flectidas e a realidade a levá-la onde o sonho a tinha deixado, começou a tocar-se com uma mão enquanto a outra lhe afastava os lábios inferiores e expunha o clitóris. Molhada, deixou escorregar dois dedos para dentro dela e, durante minutos, entreteve-se, numa espécie de carrossel, entre a penetração, o toque no ponto G de "Gutiérrez" e a estimulação clitoriana.

Por vezes, abria os olhos e parava. Não ouvia ninguém. Podia gemer.

E gemia, com a cumplicidade da água.

Sentou-se, então, no tampo da sanita, forrado pelas calças, deitou a cabeça no autoclismo, marcado por antigos cigarros acesos, e acelerou o movimento de penetração quando decidiu que já não queria manter a porta fechada ao orgasmo.

Foi assim que escolheu vir-se e veio-se ao vê-lo possuí-la no capot do carro.

Precisou de alguns segundos para se recompor.

Já não se lembrava da sensação arrebatadora, das pernas se esticarem e dos pés se deformarem por cada um dos seus dedos escolher uma direcção diferente.

Teve saudades e emocionou-se, teve câimbras e riu-se, mas saiu da casa de banho com a torneira aberta e a certeza de que aquele já era, definitivamente, um dia especial.
 
Quando chegou ao quarto, deparou-se com uma pequena assembleia de médicos e enfermeiras, à volta da cama de João. Independentemente do que ela fizera dele e com ele, a verdade é que o rapaz não havia saído, por um único segundo, do mesmo sítio. Continuava deitado, sem autonomia aparente.

in "A Dança da Vida", 2010

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

T.E.S.Ã.O.


Tesão, esse sinónimo de alimento, nutriente da massa que nos envolve, aminoácido essencial.
Essa peculiar e exigente forma de estar onde o ser é tudo excepto o destino, onde o ser é tudo o que é e o que nunca pensou ser, onde a fome não é a miséria que se conhece, mas a vida depois da vida.
Tesão é aquele beijo gordo, cheio e molhado, é aquela penetração à IKEA onde parece, e passo a publicidade, que tudo foi feito à medida e é só montar.
É aquele silêncio perfeito após o ganir do orgasmo, é o cigarro que não mata, pois a morte nunca esteve tão longe.

Tesão, essa sensação onde a paixão vigora sobre o racional, onde os animais e os incompreendidos somos nós, é a opressão da mente, orgia dos sentidos.
O Tesão são milhares de borboletas que se oferecem em sacrifício para explodir na tua barriga, é o tremor das pernas e um terror para o medo, é a insegurança da tua consciência, a dentada na maçã de Adão e Eva e a mais profunda anarquia. 
É pecado e paraíso, é o "come-me" e o "como-te".

O Tesão, mania petulante de quem escolhe sentir, é o carro engatado em primeira para que o travão de mão não separe, não congestione nem interrompa a dança dos corpos, é o processo de transformação do oxigénio em matéria, são as gotas que escorregam pelos vidros abaixo numa busca desenfreada pelo mesmo calor.
É a intimidade e por isso é vivida a campo aberto, é a luz e por isso é vivida na escuridão, é a entrega e por isso se dá.
São os gritos abafados, ainda que audíveis a vidas de distância.

O Tesão és tu e sou eu e só não é quem não quiser, é mais do que amar porque o amor “é fogo que arde sem se ver” e a tesão é um incêndio a olho nu.
 
O Tesão é a vida e quem não ousa vivê-la já pereceu, parece-me a mim…

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

APENAS O MOMENTO É PERFEITO


E lá estavam eles, sozinhos como sempre, talvez por ninguém imaginar que é nas traseiras dos castelos que moram as portas do paraíso.
Deus não os recebeu, não era necessário mostrar-lhes a casa. Eles conheciam-na como ninguém, sabiam dos seus segredos, pois eram deuses como Ele, hóspedes do costume, penetras do Olimpo.

 Ali estavam, abraçados ao sabor do vento frio, mas inócuo, que arrastava na sua gentil brisa memórias de outras vidas, quem sabe dentro daquelas mesmas muralhas que os agarrava ao momento. Sem tempo, o momento pode ser, pode comer-se e beber-se. Digerir-se-á ao longo da vida, garantindo o seu lugar na memória da pele de quem ousa senti-lo.
Ali estavam, mais perto do céu do que da própria terra que pisavam, entre nuvens que desenhavam rochas e colinas engolidas pela nébula. Entre suspiros indisfarçáveis, respiravam como podiam, sustentados pelo verde que os reanimava quando o beijo era demasiado louco.

Longos silêncios capazes de atormentar os espíritos que por lá viviam, induziam a cena para o amor num final de tarde. Nos olhos um do outro, e no intervalo do motim das línguas, remanesciam significados para aquela história, razões para se deixarem levar pelo beijo do vento que insistia em respirar leve e motivos para se permitirem cair na vertigem da entrega.
Ali estavam, sozinhos mesmo que o ruído das grandes cidades se atravessasse no meio deles, pois estavam só um no outro e assim é a intimidade, o mundo pode estar aos gritos, mas se dois apaixonados se olharem apenas nos olhos um do outro, sentir-se-ão como se o fim do mundo os tivesse exclusivamente salvo a eles.

Ali estavam, salvos pela mão dada, sobreviventes do amor. Juntos não eram um porque o “um” é pouco. Juntos eram o horizonte, a linha que nunca se alcança, um livro sem capítulos onde a poesia se dá sem parar, esfolhaçado pela doçura do vento, mel nas suas bocas, eram as asas que ninguém tem.
Ninguém os viu, ninguém os ouviu, ninguém os cheirou.
Ninguém imagina que é possível amar assim.

GRATIDÃO (8)

 
 
"Desculpa se te invado constantemente com as minhas palavras, mas sinto que se soltaram, depois de ti. É algo que pensava que andava contido, mas que fazia tão parte de mim… como que uma voz, que até então, escolhi não escutar. Escutar, sim. Porque ouvir é demasiado banal para se prestar a devida atenção. Quero, contudo, esclarecer, que estou longe de ser uma fã doentia, que acompanha cada momento que te move. Apenas me apaixonei pela pessoa que és e pela pessoa que me permitiste ser. Que sempre fui, mas estava amarrada, em confins desconhecidos. E ao tomar consciência desses confins, decidi voar. Para que fique esclarecido, tu és uma pessoa saudável em mim, merecedora de me acompanhar no meu cockpit, ajudando-me a pilotar o meu avião.

Esta palavras são palavras, eternamente gratas por se terem encontrado nas tuas. Fizeram-me mover deste marasmo em que me encontrava. Fizeram-me ver a luz ao fundo do túnel, aquela que tinha, verdadeiramente, que seguir. Sem nenhum peso teológico na coisa.

Hoje, dia 14 de Outubro de 2012, comecei a escrever. O meu livro. Sem saber onde vai parar. Sem sequer querer perceber o depois. Só porque sempre o desejei. E assim, comecei a escrevê-lo. E após levantar o lápis do papel, após horas deste mesmo lápis estar sobre escrita, lembrei-me de ti. Demasiado tempo com ideias soltas resulta numa escrita interminável, que agora transcrevo para computador. Não sei porquê, mas sempre que abri um novo documento word, nunca consegui escrever nada, ou por outra, nada daquilo que escrevera me fizera sentido, aos meus olhos. Parecia-me forçado e pouco natural. Hoje, fez sentido transcrever-me para aqui.

Tu, Gustavo Santos, tornaste-te um dos meus melhores amigos. É como se fosses imaginário, mas real. Como se compreendesses e possuísses aquela voz do ‘continua’, sempre que penso desistir. Como se visses aquilo que realmente sou. Sem aqueles bloqueios a que nos habituámos e que tu tanto referes, com tanta razão. Vou continuar a partilhar-me contigo. Sinto-me bem com isto, tiveste um peso indiscutível para o meu reencontro comigo, e por isso ser-te-ei eternamente grata. Para sempre, ‘até que a morte nos separe’.

Hoje, terminei a leitura do teu livro, o ‘Arrisca-te a viver’ que, de momento, não faz sentido na minha vida, porque me encontrei, logo após o teu workshop. Foi como que um dejá vú. Contudo, ficará sempre guardado na minha prateleira, porque sei que, um dia, voltará a fazer sentido questionar o meu propósito aqui, quem sou e que culpa trago, por não ser quem desejo. Acabei de o ler hoje e fiquei de coração apertado por saber que havia chegado o seu fim, o do livro. Pedi que me enviassem mais livros, onde entre eles, lá constavas tu. Tu tens que constar, enquanto fores necessário. Ou talvez para sempre, na minha história. Adiante…

Continuarei a escrever-te enquanto me fizer sentido. Quando já não o fizer, haverás cumprido o teu papel na minha vida… mas decerto que já tens a tua impressão naquilo que sou agora.

Um grande beijo e que ele te encontre bem, que é somente como deves estar."


Sara

domingo, 14 de outubro de 2012

"Arrisca-te a Viver" - Porto, dia 10 de Novembro

 
 
Inscrições Abertas
 
 

O AVÔ SANTOS


O avô Santos era um homem intenso, de momentos e histórias.
Aprendera que não se podia dar ao luxo de vaguear no futuro, à procura de respostas antes de tempo, e a preferir entregar-se totalmente ao presente e nele construir, dia a dia, o destino da sua vida. Do passado recordava aventuras, algumas tão nítidas que parecia ter acabado de as viver e outras, de uma forma tão ténue, que a sua quase transparência o fazia duvidar que as tivesse realmente vivido. Independentemente de, também ele, ter tentado apagar algumas dessas experiências, a verdade é que as suas marcas estavam espalhadas pelo seu corpo e vincadas na sua alma. Tudo o que tinha vivido, sem excepção, fazia dele o homem que era. E era um homem feliz. Feliz por poder olhar em todas as direcções da sua vida e sentir que tudo o que devia ter feito, havia sido vivido. Tudo o que estava a fazer era o melhor que conseguia e tudo o que viesse a fazer seria, apenas, a continuidade do caminho que escolhera para ele próprio onde imprimiria em cada ação ou pensamento o mesmo amor de sempre. Amava-se pelas suas virtudes e estava a aprender a importância de saber aceitar e perdoar os seus defeitos. Em si, existiam largas avenidas de certezas e algumas ruas estreitas e labirínticas de dúvidas. Ele sabia como era. Um dia passeava pelas bonitas avenidas que tinha construído com o passar da idade e no outro estava, intencionalmente, perdido dentro de si, entre portas que não se abriam e becos sem saída.
O Diogo e o Meia-leca já não estranhavam o silêncio do avô. Tinham percebido, com o passar dos anos, que os grandes homens e os grandes donos, respectivamente, se faziam de silêncios sem hora marcada. Esses momentos, começaram então a ser respeitados e cada um fazia a sua própria introspecção. No princípio, o avô Santos pedia para que eles não se assustassem. Dizia-lhes: - não deixei de ser eu, apenas estou a dar início a mais uma luta no meu interior e por isso ausento-me do mundo e viro-me para mim. Essa luta a que chamava Amor, era o seu alimento e a meta da sua vida. Eram guerras mais dolorosas que qualquer batalha que havia travado durante a sua Guerra Colonial. A vida tinha-lhe mostrado que mudar doía e que a tentativa de ser um ser humano melhor, um melhor marido, um melhor pai e avô, só era bem sucedida se admitisse, aos 55 anos, que ainda era ignorante por se perder nas ruas estreitas do orgulho e do medo. Ao mesmo tempo, também lhe mostrava que o providenciava de todas as ferramentas que precisasse para construir as tais avenidas largas de sabedoria. Ele sabia que podia optar sempre entre o perdão e o rancor, a aceitação e a raiva, a compreensão e o julgamento, o Amor e o medo. O seu grande desejo, e prometera a si próprio não morrer sem o concretizar, era voltar a ser um grande avenida, tal e qual como era quando nascera. Uma avenida delimitada por duas linhas infinitas de árvores que se perdem no horizonte e nas quais nunca podia tocar. A linha de árvores da direita era tudo o que podia fazer e desequilibrar-se e a da esquerda era tudo o que podia fazer e magoar os outros. Podia fazer tudo, menos despistar a sua vida contra qualquer uma daquelas linhas.
Era um homem de muitos amores e apesar de alguns dos mais importantes já se terem eternizado, continuava apaixonado por muitas coisas. Talvez as principais fossem a própria vida, onde se incluía o neto e o cão, e a palavra. E era aquele paralelo mágico que o seduzia a retirar o máximo da vida, para depois se poder sentar nos finais de tarde de domingo, e partilhar com a família tudo o que era e tinha sido, tudo o que via e tinha visto e tudo o que pensava e havia sentido. Numa altura em que proliferavam tantas guerras e tanta discórdia entre os homens, as histórias de domingo eram uma tentativa de espalhar o amor e conseguir amar.
 
in "Os Laços que nos Unem", 2008

A MUDANÇA


A mudança!
Essa constante da vida. Imutável. Permanente e tão ausente.
Esse desafio congelado, de resultado previsível, intransponível muralha de medo.

A mudança!
Feitio provocador, erótico e tangível. Ás de copas e manilha de espadas. Rei de ouros.
Lasciva forma de ser, pornográfico poder, capaz de transformar montanhas em planícies, breu em luz, tempestades em bonança e tristeza em felicidade.

A mudança!
A minha, a tua e a nossa, mas a minha antes da tua e a tua antes da nossa. Só depois a nossa.
Escolha audaz, digna dos vivos. Passagem secreta onde os mórbidos não cabem.

A mudança!
Passaporte para o amor, para as pazes e para os paraísos.
Respiração funda, lastro de fé.

A mudança!
Irmã de sangue, laço eterno até que a morte nos separe.
Dever cívico das almas, labareda de inspiração.

A mudança!
Horizonte de coragem, nortada perspicaz, tubo perfeito.
Cardápio de emoções, apaziguamento da cólera.

A mudança!
A dança sem “mu”. O muda sem “nça”.
Arquétipo da liberdade, enigma resolvido.

A mudança!

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

VALORIZA-TE!


"Se pensas que és o que fazes ou o que tens, estás longe de ser, verdadeiramente, alguma coisa e afirmo-o porque existe, de facto, uma enorme diferença entre o que somos e o resto. A diferença é tão gritante quanto perigosa e tão consciente como inconsciente. Quantas vezes já disseste que eras o teu trabalho ou a tua família? Que eras uma pessoa de sucesso porque tens determinados bens materiais ou que és filho deste ou daquela? Ou ainda que és a imagem que aparentas e o corpo mais apetecível do teu grupo de amizades? Tenho a certeza que já viveste, pelo menos, uma ou outra coisa deste género, mas, a verdade, é que nada disto é o que tu és e se continuares a pensar assim, garanto-te, mais tarde ou mais cedo, sentirás na pele a dor e a vergonha de um dia teres acreditado nisto.

Sempre que misturamos o que fazemos com o que somos ou quando assumimos que somos o que fazemos, e muitas vezes isto dá-se nas barbas da nossa inconsciência, corremos o risco de perder o controlo das nossa vidas. Começamos a viver à mercê de um conjunto de factores que não podemos dominar, sendo facilmente manuseados pela culpa, por marés de sorte ou de azar acabando por entregar a nossa vida ao acaso ou às escolhas dos outros. Este é o pior cenário onde podemos viver.

Acredita nisto: Tu és muito, mas muito, para além de tudo o que possas fazer.

Assim como és muito além de tudo o que possas ter, sejam bens materiais ou uma notável aparência física. O dinheiro compra e a estampa molda-se, mas tu nunca serás o valor da moeda nem a forma do teu corpo.

Tu, assim como eu, és um conjunto de valores."

in "Arrisca-te a Viver", 2012
 

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O HOMEM QUE SE IMORTALIZOU CEDO DEMAIS


“Meu Amor,
escrevo estas palavras sem saber se algum dia chegarão a ti, quando chegarão a ti ou se estarei vivo quando as leres.
Durante toda a minha luta pela independência do meu país nunca duvidei, por um instante sequer, do objetivo sagrado, pelo qual eu e os meus colegas sacrificámos as nossas vidas. O que nós desejamos para o nosso país é o direito a uma vida honrada, uma dignidade sem máculas e uma independência sem restrições, mas os colonialistas e os seus aliados não desejam o mesmo. Eles corromperam alguns amigos nossos, filhos da nossa terra, que acabaram por nos trair e tornar-se nossos inimigos. Nós não estamos sozinhos.
Todos os povos livres de qualquer canto do mundo estarão sempre ao lado do nosso povo.
Acredito que não abandonaremos a esperança, até que chegue o dia em que não existam mais colonizadores nem mercenários no nosso país. Para os nossos filhos, que talvez nunca mais voltarei a ver, desejo que lhes seja dito e ensinado que o nosso futuro é bonito, para que eles, por sua vez, possam ensinar aos seus filhos e aos seus netos a gloriosa história da independência de Angola. Espero que cada um continue a lutar, até completar esta sagrada missão de reconstruir a nossa independência e a nossa soberania como estado independente porque sem dignidade e sem independência não há homens livres. Nenhuma brutalidade, mau tratamento ou tortura conseguirá me forçar a pedir misericórdia, porque eu prefiro morrer com a cabeça levantada, com a minha fé inabalável e com a confiança profunda no destino do meu país do que viver na submissão e desprezar os meus sagrados princípios.
Eu sei que um dia a história contará a emancipação de todos os países livres do colonialismo.
África vai escrever a sua própria história e será de norte a sul do Sahara, uma história de glória e dignidade. Eu sei que o meu país, tão sofredor, saberá como lutar contra a ditadura e defender a sua independência e a sua liberdade. Eu sei que será posto um fim à supressão do pensamento livre e que todos os homens irão usufruir de total liberdade como prevê a declaração dos direitos do homem. Eu sei que o fim desta guerra surgirá e aí este povo será liderado pela paz do coração e não pela paz das armas.
Eu sei tudo isto. Só não sei se vou cá estar.
Não chores por mim, meu Amor.”

in "Os Laços que nos Unem", 2008