quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Revista Zen - Janeiro 2012



Nos últimos tempos, e ainda que algumas pessoas com uma ligeira legitimidade, só leio, oiço e vejo gente agastada, desiludida e irritada com as novas decisões do governo. Curiosamente, e ao mesmo tempo, não leio, oiço nem vejo ninguém a responsabilizar-se pelas escolhas que fez no passado, nem pelo estado em que pôs a sua vida.

De quem é a culpa, afinal?

Uma vez mais, nesta sociedade tão mal orientada e tão defeituosamente formada no que a valores diz respeito, é muito mais fácil julgar os outros pelas suas escolhas e construir um enorme muro de lamentações, do que olhar para dentro, assumir as responsabilidades, e construir um plano objectivo, focado em soluções e que seja orientado para a mudança.


A única forma de alterares a tua vida, é alterando o teu padrão de comportamento.

As manifestações que, agora, são moda pelo mundo inteiro, são válidas e legítimas, pois essa é a riqueza da democracia, mas a verdade é que não trazem melhores soluções. Pior, aumentam os índices de violência e potenciam as piores emoções, como a culpa, a raiva e o rancor.

No meio disto tudo, uma questão e uma certeza! O governo podia fazer mais e melhor? Tu, certamente, terás de fazê-lo!

Esta crise, mais do que financeira é, assim, uma crise emocional e de valores. As pessoas caminham com medo e o medo impede-as de saber quem são e o que querem e não há soluções sem a tomada dessa consciência.

Por outro lado, e eu gosto, particularmente, de atribuir significados positivos àquilo que escolho e me acontece, a crise é uma oportunidade de mudança, um tremendo desafio, pois destabiliza toda e qualquer rotina que, anteriormente, tinhamos e obriga-nos, cada um por si, a desenvolver novas estratégias de acção, adaptadas a um novo "Agora". Acredito mesmo que a verdadeira ascensão do homem começa no momento em que ele percebe que tudo o que procurou nos outros, durante anos e vidas, se encontra dentro dele. E não há ascensão sem um caminho e não há um bom caminho, se não o fizermos sozinhos. Se custa? Custa. Se dói? Dói. Se é vital? É. Se vale a pena? Sempre.

Outra forma positiva de encarar a crise, é brincar com cada uma das suas letras e construir uma frase: Como Rir Independentemente das Soluções do Estado?

Será possível? Claro que é.

Ainda que precisemos das soluções de terceiros, dependemos apenas das nossas. Por exemplo:

Sabes quem és? Tu és um conjunto de valores. Quais?

Gostas do que fazes profissionalmente? Se não, quanto tempo dedicas à mudança?

Quantos minutos do teu dia dedicas a viver algo que te apaixona e que seja à borla?

O governo não tem qualquer impacto sobre isto. Estou a falar-te de escolhas, exclusivamente, pessoais. Percebes?

A ausência de paixão é um dos piores problemas da humanidade e é, também, essa lacuna que, associada à má orientação da nossa sociedade, nos faz estagnar e desatar a culpar o governo, o planeta, a família, os amigos e, inclusivamente, a pessoa que escolhemos para estar ao nosso lado.

 És tu, és sempre tu a origem de tudo o que te acontece.

 Ainda não acreditas? Então responde-me a estas questões:

 Se não te identificas com determinadas pessoas porque é que te relacionas com elas?

 Se permites porque é que te queixas?

 Se não aceitas porque é que exiges ser aceite?

 Se não mudas porque é que acreditas numa vida diferente?

A sociedade vive de um esforço conjunto, ainda assim, tu podes e deves dar um brilho diferente à tua vida, mesmo que tudo à tua volta pareça escuro.

Baseado no que acabei de te dizer, escolhi um texto que faz parte do meu segundo romance, "Os Laços que nos Unem", e que retrata precisamente o essencial, ou seja, o que é que cada um de nós pode, realmente, fazer para mudar o estado em que se encontra, em detrimento de se queixar constantemente e exigir tudo e mais alguma coisa aos outros: 

"Dois homens caminhavam numa estrada antiga de terra e com muito pouco movimento. Um deles, era conhecido pela sua sabedoria e pela forma sublime, mas também estranha, com que entendia a vida. O outro, era o seu mais recente aluno e desejava no futuro ser tão sábio quanto ele. O primeiro era o Mestre, velho e simples, e o segundo era o discípulo, novo e pouco audaz. Então, numa tarde e após vários dias de caminhada a pé, depararam-se com um acontecimento pouco vulgar. As chuvas dos últimos dias tinham atolado um jipe na berma da estrada, com lama até meio dos quatro pneus e ao seu lado estava um homem ajoelhado, com as palmas das mãos unidas para o céu pedindo compaixão a Deus no sentido de Ele o ajudar ou que alguém pudesse aparecer para o assistir. Sedento de mostrar ao Mestre que estava apto para pôr em prática todos os ensinamentos que ele já lhe tinha passado, o discípulo afundou-se na lama, até meio das pernas, pronto para socorrer o homem. No entanto, o Mestre chama-o e de uma forma tranquila diz-lhe:                                                                                            

 > Não vamos ajudar este homem.                                                                                                      

O discípulo aprontou-se a responder, incrédulo, ciente que o velho estava insano:                

 > Mas porquê? Não vê que ele fala com Deus e, fervorosamente, lhe pede auxilio? Concerteza, nós somos as ferramentas divinas colocadas no seu caminho para o assistir.  

 > Não vamos ajudar este homem.                                                                                                 

O Mestre manteve o tom e a mesma expressão facial quando repetiu a resposta, como que indiferente ao pânico do seu aprendiz. Resignado, por não poder salvar um homem de Deus, o discípulo baixou a cabeça, perdido em pensamentos de arrependimento por caminhar com um velho senil durante os últimos tempos da sua vida. Porém, uns metros à frente, encontram outro jipe atolado na lama, exactamente da mesma forma que o primeiro, mas desta vez ao seu lado, estava um homem sujo até ao pescoço a tentar escavar a terra debaixo das rodas e a empurrar o veiculo com toda a força que possuía. Cansado de lutar em vão, ia cuspindo alguns palavrões contra Deus e contra a vida que o colocara naquela situação. Atentos, testemunharam o esforço interminável que o homem estava a fazer e para surpresa do discípulo, o Mestre diz-lhe:                                     

> Vamos ajudar este homem.                                                                                                    

> O quê? Este homem é um pecador. Não respeita Deus nem a vida e por isso não merece ser ajudado.                                                                                                                   

> Vamos ajudar este homem.                                                                                                        

A solenidade com que o Mestre insistiu, baralhou ainda mais a sua mente jovem e limitada. Contrariado, o discípulo não se conteve e questionou o Mestre sobre as suas intenções:                                                                                                                                   

> Mestre, como é possível negarmos ajuda a um homem de fé que deposita em Deus todas as suas convicções e agora ajudarmos um homem que blasfema a palavra divina? O Mestre sorriu, feliz por poder concluir a lição:                                                                       

> É simples. Os milagres não existem a não ser que façamos algo que os desencadeie. Não basta ajoelharmo-nos cheios de fé e pedir a Deus para que as coisas aconteçam. É preciso lutar por elas, é preciso esforçarmo-nos primeiro para que depois possamos ser reconhecidos por Ele. É preciso tentar empurrar o jipe para fora da lama.                               

O discípulo estava a começar a compreender as razões pelas quais o seu Mestre era reconhecido por toda a aldeia e arredores. Num ápice, apagou os últimos pensamentos que tinha tido a seu respeito e entregou-se, incondicionalmente, às suas ultimas palavras:                                                                                                                                         

> O vinho apetitoso flui da uva esmagada, mas alguém tem de a esmagar; o pão nutriente surge do trigo triturado, mas alguém tem de o triturar; a água purificadora aparece após vencer o filtro sensível, mas alguém tem de colocar o filtro certo no lugar adequado. Entendes agora, meu querido discípulo, a ordem das coisas?                                      

O aluno, deslumbrado com a explicação, beijou a mão do Mestre e agradeceu-lhe:                  

> Sim, entendi. Primeiro tenho de fazer por mim, para depois merecer ter e poder receber o que desejo. Obrigado."

Paz,
Gustavo Santos

1 comentário:

  1. Olá Gustavo!!!
    Só muito recentemente comecei a seguir o teu blogue e estou à adorar.Através da leitura dos teus textos encontro respostas para as minhas dúvidas e forças para seguir em frente.
    Concordo completamente com este texto...Tudo na vida tem solução,menos a morte, portanto cabe-nos a nós mesmos procurar essas soluções e desfrutarmos da vida da melhor forma possível.

    Muitos Parabéns e muito obrigada por existires nas nossas vidas mesmo que virtualmente...

    É caso para dizer "Querido mudaste a minha vida"

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