quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Revista Zen - Abril 2012



O nosso ego é a nossa maior armadilha e só existe uma maneira de escapar ileso às suas artimanhas, estar atento às suas manifestações. São duas e bem distintas: através da ilusão de que somos o que temos ou fazemos e através da vitimização. Ambas o saciam e não lhe interessa se esse alimento vem do reconhecimento ou da pena, pois o que verdadeiramente lhe seduz é a atenção a que gosta de estar sujeito.

Centremo-nos na segunda.

Hoje em dia é muito mais fácil ter o abraço de quem nos rodeia se nos vitimarmos ou chorarmos do que se conquistarmos algo ou rirmos, pois as pessoas têm mais pena do que elogios, mais fome do que vontade de comer e expressam muito mais facilmente o medo do que o amor. A pequena percentagem de gente bem focada, daqueles que não reforçam o estado das vítimas abdicando de lhes dar afecto e espaço quando os seus egos gritam que “não têm sorte nenhuma”, “ninguém lhes liga”, “ninguém gosta delas” ou que “são tão boas pessoas e ninguém as compreende” e “a vida é uma injustiça”, são naturalmente poucos para conseguir influenciar as massas, ainda assim, acredito eu, somos nós os verdadeiros líderes desta nação. Provavelmente não teremos uma esperança de vida suficiente para assistir ao triunfo da coragem e à prevalência do amor, mas se quando partirmos tivermos a consciência de que o nosso legado está bem entregue e será bem dirigido por quem fica, abandonaremos este mundo com uma paz imensurável, a paz de quem verdadeiramente cumpriu a sua missão e missão só há uma: ser feliz. O desafio está em saber como e fazendo o quê, e uma coisa vos garanto, as lamentações só servem para construir altos muros, estepes de betão que não nos permitem, sequer, sentir o serpentear do vento pela pele.

Nesta vida ou somos embaixadores do medo ou somos embaixadores do amor e há algo que é fundamental sabermos: nenhuma destas escolhas é errada, apenas nos reservam realidades diferentes e a estar rodeados de pessoas distintas. Qual tem sido a tua escolha? Acredita que para a grande maioria das pessoas a dor é a sua zona de conforto e, se for este o teu caso, quando me dizes que não gostas nada do que estás a sentir há anos e anos, estás enganado, pois a verdade é que já estás tão formatado ao teu ego e ele já te manipula tão bem que, inconscientemente, continuas a usar a comunicação negativa e a face toldada para conseguires tudo o que queres. Habituaste-te a isso.

Como evitar, então, a vitimização?

Se já sabemos que é uma tática do ego, torna-se fácil derrotá-lo? Não. A maioria das pessoas que padecem destes sintomas estão alienadas da realidade há muitos anos, ou seja, não identificam o que se está a passar com elas como um mal pessoal, pois esta é a única concepção de mundo que têm.

Como poderemos, então, travar esta cavalgada?

O papel de quem está de fora, a assistir, é preponderante, não é decisivo, mas é preponderante e a única forma de derrotar este hospedeiro passa por não o alimentar, ou seja, reforçando com afecto e uma boa comunicação o que é bom e nunca o que é jogo dele e questionando quem se vitima sobre as experiências boas da sua vida quando se queixa dela ou sobre os nobres valores de determinadas pessoas quando se queixa delas. O objectivo é levar este ser, novamente, à consciência e uma vez consciente já poderá caminhar pelos seus próprios pés. 

Não existe qualquer solução fora de nós e tudo o que pensares ser e ter encontrado fora de ti não é real, é ego. 

Paz,

Gustavo Santos

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