segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O PRINCÍPIO E O FIM, O AMOR!




"Havia qualquer nela que o excitava. Que o fazia roer as unhas e comer as peles já em sangue, que lhe prendia o pensamento em cantos escuros, paredes esfoladas e elevadores encravados. Havia qualquer coisa nela que o matava, que o fazia olhar para o relógio, vezes sem conta, e assistir ao tempo castigar-lhe a vida, levando-a sorrateiramente, sem que lhe desse uma pequena esperança para se assumir e mostrar-se, para que ela percebesse que ele estava ali, a apenas alguns metros de a possuir. Insistiu. Desviou-se um passo milimétrico para a direita, acatando as coordenadas precisas dos seus verdes olhos tensos e percebeu que já estava no sítio certo, no campo de visão de quem queria estar. Estavam agora mais perto, embora ela continuasse sem perceber, por ter a mira ainda desfocada. Pegou numa taça gelada de champanhe francês para lhe arrefecer o corpo e deixou-se estar na quietude agitada do seu corpo. Tinha a cabeça inclinada para baixo e os olhos subidos, fixados, à espera de um súbito sinal que, teimosamente, não aparecia. O tempo expirava mas, na sua cabeça, as certezas respiravam cada vez melhor. Os longos cabelos acentuavam-lhe o rabo, o mesmo rabo que ainda iria tocar, agarrar e esmagar. Eram castanhos-escuros e escorregavam-lhe, numa ondulação perfeita, pelas costas mais femininas que já tinha visto, as mesmas costas onde ainda iria vincar as suas unhas e arrancar tudo o que estivesse no caminho descendente das suas mãos. Ele via-a sorrir, gastar o batom e as palavras em cumprimentos sucessivos que não sentia e que enganava com o olhar. Percebia à distância que mentia com todos os dentes daquela boca vermelha, boca essa que ainda iria gritar nos seus ouvidos o seu nome, morder o seu peito, molhar-lhe a pele e pedir mais. Havia qualquer coisa nela que o transportava dos oito aos oitenta. Do carinho ao descontrolo. Da vida além da vida. Avançou dois passos na direcção do preto do seu vestido justo. Já tinha bebido mais duas taças do mesmo champanhe, já sem origem nem sabor, descaracterizado pela proximidade de um cheiro intenso, envolvente, que lhe arrepiava as células e levantava ,discretamente, o sexo. Era a vez do toque de uma voz aveludada mas rouca lhe contornar o corpo já suado pelo calor ardente de um peito eriçado que podia com relativa facilidade alcançar. Mas ainda não queria. O tempo já não corria contra ele, corria como ele queria. Uma confiança cega percorreu o seu corpo, libertou a sua mente e deu-lhe a maestria de brincar com o tempo, de alongar a noite e atrasar o dia. Ainda era cedo e só queira apanhar-lhe as pernas quando ela percebesse que não tinha como fugir e que era vítima de si própria. A música começou a tocar mais alto. As luzes brancas despediram-se e as negras eclodiram. Ela transformou-se numa silhueta desenhada a compasso, com curvas perfeitas, que até o escuro se sentia tentado a tocar. E no meio do embaraço, sem respeitar a sua vez, tocou-lhe ele. Ela sentiu, mas não acusou. Ela gostou, mas não admitiu. Ela ficou, mas saiu. Ficou na mão dele, mas perdeu-se nas sombras. Ele cheirou e beijou cada um dos cinco dedos que haviam lambido o seu ombro nu, brilhante e macio, até que eles voltassem a ser seus. Havia qualquer coisa nela que o fazia ir atrás. Que o fazia esquecer que estava em público, que lhe aniquilava a consciência e envenenava o discernimento. Sentiu que não podia ficar parado e por isso partiu em busca do seu final de noite e reinício de vida. Vasculhou todos os ambientes, revistou todas as pessoas, ausentou-se de si para poder olhar de mais alto e nada. Ela não estava em lado nenhum. A dança misturou os cheiros, a música engoliu os outros sons e as luzes apagaram as formas e distorceram as expressões. Pela primeira vez, desde que entrara naquela casa, deixou de a ver e um estranho sentimento de angústia deu novo fôlego ao tempo. Haviam passado duas horas e o sentido solar dos ponteiros do relógio indicavam a proximidade de um novo dia. Um dia que não podia nascer sem estar consumado o que sentia dentro dele. Procurou a paz fora de casa, olhando para um céu menos escuro do que quando entrara e lá estava ela. Encontrou-a sozinha, repleta de mãos à sua volta, encostada a um pilar branco que segurava uma das fachadas da casa e que dava para o jardim. Segurava na mão esquerda e na face um copo e um olhar vazio. A noite ia longa como o seu cabelo e o vestido amarrotara-se de tanto a proteger do roçar de estranhos como ele. Ali, o silêncio era mais alto que a música e apenas o som estalado e esmagador de um caminhar se fez ouvir. Naquele momento estavam a poucos passos, a menos que os dedos de uma mão. Voltou a cheirá-la e a sentir o mesmo arrepio. Ela apercebeu-se de um certo estremecer, encheu o olhar e encarou-o. Era ele. O homem da sua vida. Acreditava no desdobramento da Alma e por isso sentiu que apesar de estarem perplexos, de olhos fixados um no outro, já estavam abraçados, misturados numa chuva miudinha de Inverno que lentamente alagava o chão. De regresso à realidade física sentiu que não havia como escapar, nem queria. Certificou-se que tinha derrotado de uma vez por todas o tempo e que aquele era o seu destino imediato. Ia mesmo acontecer. As suas almas convidaram os seus corpos para que eles se pudessem saciar. Confirmaram a sua presença e uns instantes mais tarde apareceram. Já não havia dedos a separá-los. Estavam juntos na mesma poça de água prateada. Ela tinha os olhos brilhantes e profundos, pintados de castanho-escuro, com um anel preto a circundá-los, pontuado com pequenas estrelas esbranquiçadas. Eram a extensão daquele céu que os acolhia e neles estavam inscritas palavras de um dialecto muito especial, mais antigo que os velhos dialectos. Eram palavras que haviam nascido com o homem e que apenas uma alma gémea poderia reconhecer. Naqueles instantes, entre a confirmação dos corpos e o primeiro toque, ele reconheceu-lhe todos os movimentos. Já sabia o jeito dela, a forma como sentava o corpo numa das pernas, como descaía a cabeça sobre um dos lados do pescoço, como respirava livremente pelas narinas e como impedia a rebeldia de certos cabelos lhe entrarem pela boca. Até a forma como ela se assustava, por ter deixado cair o copo, voluntariamente, no chão para libertar o seu lado canhoto o fez recuar numa memória perdida. Houve um sentimento de familiaridade. Numa quietude incisiva, mergulhou na noite daqueles olhos e apercebeu-se de marcas de um outro mundo que não conseguia alcançar. Identificou-se com um sentimento que também estava a sentir naquele momento e sentiu no coração um sopro que lhe tirou o ar e encheu de vida. Percebeu que eram mais do que aquele homem e aquela mulher, que eram maiores que aquele espaço.

Passou-lhe pela cabeça que poderiam ter decorrido vidas sem se encontrarem mas, finalmente, estavam ali, frente a frente, a boiar quase à deriva num rio que outrora fora poça, onde a cor prata ia ganhando mais brilho com o nascer de um dia anunciado. O som da chuva que, insistentemente, lhes caia nos pés foi interrompido pelo tom grave de uma voz:

- Eu sabia que te estava a atrair para mim e que mais tarde ou mais cedo me encontrarias e me abordarias com o mesmo olhar que fizeste.                                                                           
Ele assentiu e ela continuou calmamente:

- Por isso é que me afastei da multidão e me encostei debaixo da chuva, para que pudesses respirar o meu cheiro que só a água do céu sabe apurar e que apenas tu podias reconhecer.

- Sabes quem eu sou? Ainda te lembras de mim? - Perguntou-lhe, com o punho fechado e o pulso em riste, mostrando-lhe a fidelidade amarela.

- Eu sei tão bem quem tu és como tu sabes quem eu sou. Desde que senti que estavas naquela sala, nunca mais consegui estar lá dentro. Apetecia-me despir e ser tua. Apetecia-me que jorrasses no meu corpo as taças de champanhe que bebeste e que as bebesses levando na tua língua pedaços de mim.

Depois do que ela disse e do que ele ouviu, nenhum dos dois soube ao certo quanto tempo passou, talvez menos que um instante, até a conecção ter sido feita.

- Dá-me a mão. - Pediu ela.                                                                                                            
O toque desencadeou um súbito estado de excitação e num rasgo de dor boa deixaram-se engolir pela evidência. A forma como se agarraram tirou todas as dúvidas ou medos de se estarem a entregar a um estranho. Eram sobejamente conhecidos um do outro e havia uma liberdade para desfrutar. O beijo era um regresso a casa. Os lábios moldaram-se perfeitamente como se nunca tivessem beijado outras bocas, as línguas salgadas lamberam-se vorazmente durante quilómetros atenuando distâncias e o sabor era tão bom que conseguiram perdoar o tempo. Não conseguiram fechar os olhos uma única vez. Queriam tudo. Queriam ver o beijo, senti-lo e ouvi-lo. As bocas abertas lutavam, como dois leões-marinhos por mais território numa luta onde não havia feridas nem derrotados. Lutava-se pelo Amor, a fonte inesgotável da vida. O ar não entrava mas respirar também não era o mais importante. Ela desapertou-lhe as calças, demasiado justas para o tamanho do seu sexo, aliviando-o, e com o desejo doce da sua mão fê-lo estremecer de prazer. Por sua vez, a mão dele subiu, sem respeito, pela perna dela em direcção ao rabo que prometera a ele próprio agarrar. Fê-lo com tanta força que ela gemeu num grito sussurrado de ardor e nem quando a língua lhe saiu da boca para lhe violar o ouvido em círculos molhados, conseguiu parar de sussurrar: “come-me”, “come-me”, “come-me”. Ele baixou-lhe as alças do vestido e pela primeira vez pode apaixonar-se pelos seus seios. Estavam arrepiados como os seus e contra os seus agitaram-se numa fricção angustiante de tão boa que era. Apeteceu-lhes chorar e nunca souberam se chegaram a fazê-lo ou se eram apenas gotas de um final de noite de Fevereiro. O longo casaco cinza que ele levava vestido já estava emerso no chão, confundindo-se com o cinzento-escuro da pedra, a camisa preta já tinha menos três botões, no seu peito já estavam cravadas três unhas no sentido descendente que com o passar dos segundos iam ganhando uma cor vermelha e as calças há muito que andavam perdidas pelos joelhos. A chuva continuava a cair, sem piedade, sobre os dois e o peso da roupa era substituído aos poucos pelo peso dos cabelos molhados, já sem forma nem corte. As cuecas, puxadas pelo quase desespero, foram-lhe rasgadas pela anca deixando-lhe a pele a queimar mas, por apenas breves instantes, pois a água do céu apressou-se a apagar o pequeno incêndio e, involuntariamente, levou-as na corrente que se apressava aos seus pés. Ela deu-lhe uma perna, ele apanhou-lhe a outra e subiu-a pelo rabo. Encostou-a ao pilar e de costas para o jardim, entrou no seu íntimo com a sua intimidade aguçada. Não tinham protecção mas também não havia razões para se defenderem. Não houve atrito. Não houve conflito. Mais uma vez os moldes eram perfeitos. A chuva já não conseguia molhar mais e mesmo assim, não era tão molhada como o prazer molhado que lhe envolvia o pénis entre aquelas duas paredes. Trocaram velocidades, ângulos, forças. Largaram o pilar e dançaram em círculos perfeitos sobre a relva e a céu aberto, cada vez mais aberto com o nascer do dia. E foi num banco do jardim, quando a sentou em cima dele que se olharam e decidiram, sem palavras, explodir um dentro do outro. Ele agarrou-a pelo rabo, marcado com dez dedos e puxou-a para si. Ela inclinou a cabeça para trás, sentou as mãos nos joelhos dele, apontou os mamilos para a claridade envergonhada e deslizou-lhe pelas pernas molhadas sem parar. O orgasmo chegou numa convulsão sintonizada. Gritaram muito, disseram coisas, tiveram espasmos, tremeram de frio e de calor e abraçaram-se. O fogo do Amor aclarou, finalmente, o céu e os primeiros pássaros da manhã puderam ouvir os ecos da noite ainda viva. A chuva calou-se com o final da madrugada, tal como eles, pois a alegria que sentiam poupou-lhes o embaraço de terem de dizer alguma coisa. Assim, apanharam a roupa enlameada, vestiram-se da forma que era possível e abandonaram juntos a casa. À saída, olharam-se uma última vez, para depois virarem em direcções opostas, rumo a mundos diferentes.

A tranquilidade esboçava-se nos seus rostos, à medida que se iam afastando e lembrando da noite em que permitiram que a felicidade entrasse nos recônditos mais profundos das suas almas. Em uníssono, pediram que o mundo não pronunciasse palavra, nem som, enquanto os seus pensamentos deambulassem naquele cenário de ternura e cumplicidade, onde os seus corpos lânguidos, nus e sedentos se fundiram e partiram num voo dulcíssimo de prazer. Os gritos, que rasgaram a quietude do sono dos justos e invadiram o retiro dos inocentes, sem dó nem piedade, ainda ecoavam nas suas cabeças numa necessidade atroz de revelar ao mundo a sintonia entre dois seres, numa emergência desmesurada de ascender aos céus e eternizar o maior acontecimento a que se pode assistir: a entrega. Não reprimiram as lágrimas e renderam-se em confissão profunda, quase religiosa, aos encantos do Amor."

in "Os Laços que nos Unem", 2008

1 comentário:

  1. Li o livro ,faz algum tempo. Reler agora alguns capitulos por ti seleccionados "Sabe tão bem " . Merecemos !! Obrigada pelo "arrepio da pele"

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