sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O AMOR INVISÍVEL


“ A mais hostil das travessias no deserto é o Amor invisível. Ensinam-nos a atravessá-lo nas horas de menos calor, a evitar as tempestades de areia, a levar suplementos de água e todo o tipo de alimentos, mas ninguém nos consegue ensinar a não sofrer por Amor, a não derreter com tantos medos, a não desistir com tanta insegurança e a não desidratar com tanto silêncio. A conquista é a maior das travessias e o deserto, seja no sentido metafórico ou real, é a maior das aprendizagens. Eu estou a aprender a levantar-me, naquelas areias profundas e escaldantes, sempre que me fazes cair, rasteirado pelo teu silêncio que me mata aos poucos. Eu estou a aprender a viver a pão e água, a racionar o pouco que me dás e a estendê-lo até ao fim de cada dia. Estou a aprender a expor-me, a dar-me e a entregar-me incondicionalmente, mesmo não vendo em ti, uma ponta de ti própria. Estou a aprender o que ninguém me poderia ensinar e estou mesmo a sofrer por Amor. Encontro-me num deserto criado por mim, pelas minhas opções. Muitas vezes, entre as montanhas de areia que edificas à tua volta e que me impossibilitam de chegar a ti, pergunto-me porquê? Porque é que estou a obrigar-me a passar por isto se eu sou o vento da minha própria vida e posso mudar de direcção sempre que eu queira? A resposta vem quando olho para ti e não consigo deslumbrar mais nada que não sejas tu. A resposta surge quando fecho os olhos e tenho a certeza que te amo a ti e a mais ninguém. Agradeço-te, todos os dias, pelas tempestades de areia que sopras para os meus olhos, pela fome e pela sede que me fazes passar porque, apesar de nem imaginares, dás-me sombra de dia e cobertores de noite, para que possa continuar a resistir e a crescer dentro de mim. Acima de tudo, proporcionas-me uma luta contra mim próprio, um teste às minhas capacidades, porque o meu Amor por ti é invisível. Não o vês mesmo que te dê o Mundo, não o sentes mesmo que te abrace com toda a minha força nem acreditas nele porque tens demasiadas redes a prender o batimento do teu coração. Toda a minha caminhada pode ser em vão. Sei que posso sucumbir, subitamente, por um dia me dizeres que não consegues, mas prefiro acreditar que quem ama nunca desiste efectivamente, porque sei que mais vale amar-te e esperar pelo teu tempo interno do que vaguear perdidamente pelos falsos oásis da ilusão que rapidamente poderia alcançar. Apesar do cansaço, acredito que o nosso Amor é real e que ainda vou vencer essas dunas porque sei que estás aí e sei que sentes o mesmo que eu. É tudo uma questão de tempo e persistência porque a luz do meu Amor é mais forte que os raios do Sol e o combustível que esse sentimento me oferece, dá-me a autonomia suficiente para me auto-sustentar e continuar à tua procura. Otília, existem certezas que por enquanto só encontro nas palavras, mas que são tão fortes que me acalmam e me dão ar para continuar a respirar fundo. O Amor invisível que sinto por ti é esta luta pela sobrevivência em que travo comigo próprio as mais duras batalhas contra o ego e contra o orgulho. Uma vez mais, baixo a minha cabeça aos teus pés para sentir a minha alma elevar-se, levando com ela o meu corpo, até começar a subir os teus medos com uma força que nunca senti, ansiando o dia em que me consigas ver.
Amo-te.”  

in "Os Laços que nos Unem", 2008                                                                                                                             
                                                                                                                                              

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