quarta-feira, 26 de setembro de 2012

LEVA-ME CONTIGO



"Leva-me contigo vida.
Vamos fugir deste mapa cinzento e só regressar quando as cores da nossa vida se tocarem numa trincha larga e infinita que nos ligue eternamente.

Quero apaixonar-me por ti e que vivas em mim. Quero ser a infinidade contigo e caminhar com a simplicidade de uma mão dada, no caminho que ambos pintarmos.

Seremos artistas das quatro estações, nos quatro cantos redondos do mundo.

Leva-me contigo para um lugar qualquer, longe ou perto, onde exista um espelho mágico tão grande, que não tenha outra alternativa senão olhar-me nele, autodescobrir-me para além daquilo que os olhos se apercebem e finalmente encontrar-me comigo e com o amor. Pode ser aqui, ali ou acolá. Para norte, sul, este ou oeste. Para o calor de um deserto ou para o gelo do árctico, para uma praia encantada de água azul cristalina ou para o interior de um castelo no cimo de uma montanha. Leva-me para esse sítio encantado, onde me possa libertar dos condicionamentos do tempo e das suas ilusões e aprenda a desligar a mente e a viver no único momento que é real, o presente.

Convida-me a olhar em volta sem interpretar, nem julgar. A ver as luzes, as formas, as cores, as texturas e a sentir a presença silenciosa de cada objecto. Não quero continuar a olhar sem ver, a ouvir sem escutar.

Por isso, leva-me nos teus sentidos e distrai os meus para que não saiba para onde vou, não veja o destino na sala de embarque, não ouça o ruído da partida nem me aperceba se me levas pelo ar, pelo mar, pela terra ou, simplesmente, por magia. Surpreende-me.

Acredito em ti como nunca acreditei e reconheço em mim, uma máscara enferrujada, que preciso deitar fora, e um muro intransponível que preciso derrubar.

Ainda não sei o que é essa liberdade, mas conto contigo para me levares lá.

Não me digas que não podemos ir e emite-me esse bilhete...peço-te. Sei que esperaste por mim todos estes anos, mas só agora estou pronto para derrotar os meus medos e entregar-me a ti.

Quero despojar-me do meu passado e renascer.

Leva-me vida e eu levo comigo apenas o necessário para os primeiros passos, pois sei que me providenciarás de tudo o que necessito.

Ouvirei o rufar triunfante da minha respiração e o palpitar do meu instinto. Verei a sedução condutora da natureza e através do seu manto de luz guiar-me-ei pelas estrelas, ventos e marés, até dar de caras comigo num lugar qualquer onde o tempo não existe e as pessoas possam sorrir, simplesmente, por saberem que possuem o bem mais valioso de todos...TU.

Não sei se este lugar existe ou se o espelho mágico não passa de uma criação espontânea da minha cabeça, como sendo a única saída para enfrentar medos que tenho receio de perceber. Mas sei que só escrevendo esta carta é que posso ter hipótese de lá chegar e me encontrar, pois as palavras apontam para além daquilo que elas são, abrindo caminhos que só poderão ser percorridos, mais tarde, pela provação. E eu quero sentir esse sabor...

Leva-me contigo, pois só assim poderei renascer dentro do meu próprio coração e ter alma de pássaro. Só assim, poderei sentir a sintonia e a unidade com alguém que possua uma alma esvoaçante do tamanho da minha e me ame da essência, nesta viagem tão misteriosa que é a autodescoberta.

Leva-me contigo da escuridão labiríntica à claridade, do medo ao amor, do constrangimento do tempo ao silêncio da paz interior.

Leva-me contigo até às portas da felicidade.”
in Carta Branca, 2006

2 comentários:

  1. Esta poderia ser a carta que eu própria escreveria à minha Vida...revejo-me nela e sinto que sou eu que a escrevo, que cada palavra dita é um sentimento que se vai diluindo em mim...

    Tenho um bilhete de embarque na mão, mas não sei a que porta me dirigir porque todas me assustam...

    O medo do desconhecido teima em fumegar à minha volta, baralha-me os sentidos e turva o meu coração...

    Ainda assim, a Vida vai-me sussurrando e quase que me consigo ouvir dizer: "Acredito em ti como nunca acreditei e reconheço em mim, uma máscara enferrujada, que preciso deitar fora, e um muro intransponível que preciso derrubar."

    A esperança nunca morre e sei que a LUZ vem sempre no fim...

    Obrigada Gustavo pelas palavras que já foram tuas, mas que hoje são as do meu coração!

    Beijinho

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  2. "Leva-me contigo vida"
    Li estas palavras pela primeira vez quando estava a ler "Arrisca-te a viver" fiquei com muita vontade de ler o livro "Carta Branca" o problema e que não o encontro em parte nenhuma e na Internet encontra-se indisponível, como o posso encontrar?
    Quero muito lê-lo. Peço respondam-me PF
    ana.shortym@gmail.com

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