domingo, 30 de setembro de 2012

GRATIDÃO (6)


"Provavelmente deveria ter feito tudo isto ao contrário.
Ter lido o livro, ter ido ao Workshop e depois decidir-me, por mim. Agora, é quase a sensação de estar a ler um livro de um filme que já vi. Ao lê-lo, estou a ler-te. Estou a ouvir a tua voz e a olhar as tuas expressões. A cada ponto de interrogação, consigo ouvir a entoação que lhe davas, a garra com que transmitias (e transmites) aquilo em que acreditas. Hoje estou a ler-te em constante esgar de sorriso. Porque é tudo tão fácil quando nos apercebemos de nós.

Levei-te comigo para Itália, sem saber sequer que ias estar aqui. Um presente inesperado, de última hora. Como que mais um incentivo à minha decisão ou talvez mesmo, um não te esqueças do que decidiste. Por ti. Mas hoje, amanhã, depois ou mesmo mais tarde, se chegar aos cabelos brancos, nunca mais vou precisar de incentivos, na mesma medida em que nunca me esquecerei de ti. Serás sempre um marco. Um ponto de viragem. Uma página que virei, sem qualquer livro presente.

Quero falar-te porque também eu gosto de escrever. Quero contar-te a minha decisão. Estou só, em Itália. Estou e sinto-me bem. Pela primeira vez, oiço-me sem distrações. Estou em silêncio sem pensar. Demorei a fazer esta coisa dos projectos tipo Erasmus que se fazem quase nos primeiros tempos de faculdade. Tinha medo de me ouvir. Tinha medo de desiludir uma panóplia de pessoas que me rodeavam, não mais importantes que Eu.

Só contigo percebi que Eu ser importante, seria melhor para todos nós.

Hoje estou aqui sem o conforto de uma casa. Sem o meu quarto, as minhas coisas, a minha televisão. Com a internet limitada e sem o meu querido android operacional. Mas tenho o essencial e estou focada em mim, sem factores externos a afastarem o meu caminho. Sem desculpas. Tenho-me e estou completamente disponível para fazer o que sempre quis e para o qual só agora, verdadeiramente, me propus: trabalhar na área social, com crianças e jovens, independentemente da remuneração.

Hoje não tenho distrações. Problemas do dia a dia que não passavam de pequenas mesquinhices de quem não tinha mais nada que fazer. Com pouco, tenho mais. Muito mais. Consegui alcançar uma espécie de paz interior que me bloqueia o que não é importante ou essencial. O que vinha causar distúrbio e ansiedade. Só por isto diria que esta experiência já valeu a pena. Mas estou aqui apenas há uma semana e sei que ainda haverá muito mais para contar. Muito mais para me conhecer e, simplesmente, ser.

Jamais, na minha história, poderei não te mencionar.

Fizeste história na minha história. Acordaste-me da minha dormência. Abanaste-me os medos. Nada acontece por acaso e sei que, mesmo que nunca mais nos voltemos a cruzar, é este o intuito de cada um de nós nas nossas vidas. O dever foi cumprido. As pessoas não têm que ficar para sempre, mas estão porque têm que estar. Causando dor ou alegria, são fundamentais.
E tu foste fundamental.

Vou continuar a escrever a minha espécie de diário, as minhas palavras soltas e sei que estarás sempre presente nelas. Estará sempre um bocadinho de Gustavo em mim, bem como acredito que em muitas outras pessoas às quais já abanaste as suas vidas."


Sara

2 comentários:

  1. Lindíssimo testemunho, obrigado pela partilha

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  2. É isto que tu fazes nas pessoas! Libertas-as, mostras-lhes o caminho e ajudas-as a encontrar a felicidade! Obrigada Gustavo por tudo o que és e nos fazes ser!

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