terça-feira, 25 de setembro de 2012

E TUDO UM SEGUNDO PODE LEVAR



"- Sabes que te amo, não sabes Íris?

Ela anuiu humildemente, a meio das escadas que davam entrada ao edifício.

- Amo-te.

Depois de o dizer a sorrir, colocou o indicador direito na pequena alavanca que comandava o vidro eléctrico, premiu-a, e enquanto a pequena janela se fechava, Íris, para seu próprio espanto, encheu a dita palavra de voz e disse-a também, baixinho.

- Amo-te.

Para seu desconsolo ele não a ouvira, apenas ela no mundo a escutara, e quando o motor começou a rosnar juntamente com a música, fiel companheira dos dias do seu namorado como ela própria, correu para o carro e desenhou-lhe um coração no canto superior direito do vidro da frente, embaciado e por isso macio, na esperança que uma coisa substituísse a outra e para, mais uma vez, não o deixar sem a resposta que merecia.

 “Preciso de um anestesista... saiam da frente... rápido...”

Quando pisou o pedal direito, deixando a namorada para trás, rumo à ultima noite em casa dos pais, nunca pensou que a meio do caminho o destino lhe quisesse dar outra morada.

O fim da custódia e a certeza de que no próximo pôr-do-sol ia estar de novo, e para sempre, na casa dela, fê-lo entrar numa espiral de afirmação tão emocionante que mesmo com o piso molhado não se coibiu de ver o ponteiro do velocímetro escalar números inadequados às condições da estrada. Talvez por levar o coração do seu amor estampado à sua frente, qual candeia acesa, para lhe iluminar o caminho, o certo é que arriscou e apesar da culpa não ter sido sua, a violência do embate que estava para acontecer foi com a velocidade que escolhera.

As sombras da madrugada revelaram-se à passagem pela variante da nacional nove, no sentido Alcabideche – Sintra, quando já passavam das três da manhã.

Escondidas entre as copas de algumas árvores e disfarçadas pelo breu, reuniram-se em congregação à beira no alcatrão para assistirem à possível explosão de mais um corpo e à perdição da sua respectiva alma.

Feliz, inocente e alheio à realidade do outro mundo, devorou a estrada sem pressentir nada. Devido à hora e ao facto de ser dia de semana, a grande recta estava sem movimento e apenas mais um carro parecia estar acordado, pois, lá ao fundo, apenas vislumbrava duas luzes brancas apontadas a si. O R&B era, assim, a sua única verdadeira companhia na viagem. Naquele momento as colunas do seu bólide gritavam “End of the road”, dos Boyz II Men e ele gritava com elas, apaixonado até à ultima nota, até que poucos segundos depois, a meio do primeiro refrão quando a letra dizia “... you belong to me, i belong to you...”, os mesmos dois focos de luz que avistara, instantes antes, estavam em cima dele. O espectáculo pelo qual todas as almas perdidas aguardavam estava a milésimos de segundo de acontecer, pois o maldito carro circulava, afinal, na mesma faixa de rodagem, do mesmo lado dos separadores, em contramão. Sem tempo de reacção para deixar de acelerar sequer, entregou-se às suas próprias mãos e estas, empurradas sabe-se lá por quem, apenas tiveram tempo de guinar o volante, cento e oitenta graus à direita, desviando o carro de um embate frontal e assim evitar que a luz intensa dos faróis o elevasse, imediatamente e à força, para o céu.

Nesse preciso instante, com o piso molhado e à velocidade que ia, soube que algo de mau lhe poderia acontecer.

Consumado o desvio do prevaricador e do final, certo, da estrada da sua vida, fechou os olhos, contraiu os músculos, como se quisesse dizer ao corpo que não o ia largar, e gelou. Passou menos de um segundo e de repente tudo perdera o sentido ao esmagar-se, de frente, contra um separador de betão que se encontrava na berma da estrada, ali colocado há poucos dias para separar a estrada de uma zona residencial.

Esse primeiro embate apagou-o.

“Chama-se João Maria Gutiérrez de Almeida, tem vinte cinco anos e a família vem a caminho...”

Não assistiu à tentativa do automóvel dar a vida por ele. Não viu a frente desfazer-se, o coração com as impressões do amor da sua namorada explodir em centenas de estilhaços, a capota de lona rasgar-se por cima da sua cabeça, o carro ganhar asas, ser desfeito no ar e depois em terra, às cambalhotas e em consecutivos ricochetes nos separadores, enquanto a música que lhe enchia a alma ao lembrar-lhe que pertencia a alguém se calara com ele e dera lugar ao som do aço torcido e da chapa esmagada.

Silêncio.

Não houve gritos, não houve murmúrios de dor, não houve gente para acudir e a linguagem das almas moribundas que testemunharam o ocorrido era inaudível aos humanos. A única pessoa que podia ter prestado auxílio à vítima, ausentara-se da sua responsabilidade e, em contínua infracção, possuído por uma inconsciência demente, prosseguiu o seu caminho como se não tivesse presenciado o súbito desaparecimento de dois focos de luz, mesmo à sua frente, nas sombras da noite.

Cada segundo a mais era um segundo a menos."  


in "A Dança da Vida", 2010

1 comentário:

  1. I´m a surviver!!!!!

    Aprendi a enfrentar o dia a dia sempre do mesmo modo,amanheça ele cheio de problemas,alegrias ,deceções ou surpresas.Quando não alcanço uma grande vitória, contento-me com pequenos acontecimentos. Sei onde encontrar o clarão da excitação,o momento da beleza e da espiritualidade. Os sobreviventes possuem uma espécie de talento para a vida, uma fúria de usufruí-la plenamente.Valorizo todos os momentos e encontro novas motivações,mesmo que pequenas,todos os dias. "sofrer" é talvez a mais fácil das actividades humanas , "ser feliz" é talvez a mais dificil porque temos que a construir . -Escolhi a segunda !!
    ah ...remetendo-me ao texto ,reencontrei a palavra "amo-te"...

    «CONSCIÊNCIA»

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