domingo, 23 de setembro de 2012

DE UMA MULHER ESPECIAL...



"Abraçou-a, trocaram lágrimas e ela entregou-lhe um envelope. Fotografaram um último olhar e virou costas.
Depois, apanhou um táxi e dirigiu-se ao aeroporto. Durante a viagem, e sem conseguir amansar o desejo de a ter de novo, abriu o envelope, encostou a cabeça para trás e leu-a:

“As palavras escritas são o único meio pelo qual posso tornar eterno o que foi vivido durante o tempo… o nosso tempo. Não é fácil, nem mesmo possível transcrever o mundo dos sentimentos, tal como os sentimos. As pequenas sensações obtidas nos pormenores, jamais poderão ser descritas como uma história que lemos num livro. Essas histórias apenas servem para alimentar os nossos sonhos. Por sua vez, os sonhos só alimentam a alma quando nós próprios temos o privilégio de ser os protagonistas da mais bonita experiência de viver. Viver o que se sente, viver as emoções, viver o prazer, viver através do corpo, através de todo um mundo que existe dentro de nós.
Por muita tinta que todas as minhas canetas tenham, nunca será possível passar para o papel uma ínfima parte que seja de tudo o que pude viver contigo, tudo o que senti e tudo o que sinto neste momento ao escrever-te.”

Tomás interrompeu a leitura, fechou os olhos com força e logo duas correntes salgadas percorreram o seu rosto. Pensou, por momentos, que talvez fosse melhor parar. Mas ali, à sua frente, exposto em simples papéis, estava o coração daquela mulher, aquela que o amou incondicionalmente. Parar de ler seria matá-la dentro de si:

“Foi como uma viagem ao imaginário em que tudo acontece, em que tudo é sempre melhor e melhor, bonito e mais bonito e nunca cansa. Já alguma vez me ouviste dizer que estou cansada de sorrir? Que me fartei de ver o pôr-do-sol? Já alguma vez te disse que a Lua era feia? Que estou farta de ver o azul do céu? Não! E tenho a certeza que tu também não! Esta é, talvez, a forma mais aproximada que encontrei para explicar o que sinto. Nunca foi possível fartar, cansar de olhar para ti, para os teus olhos, para o teu corpo.
Espero do fundo do meu coração e da minha alma poder tornar eterna, dentro de mim, a magia desta energia que sinto ao pensar em ti e em tudo o que vivemos.
Sinto-me a pessoa mais importante e mais orgulhosa do mundo por ter escolhido viver esta experiência contigo e, sinceramente, espero poder encontrar-te, mesmo que seja na velhice, para te abraçar com a força da minha gratidão e para voltar a sentir a profundidade do teu olhar a entrar dentro de mim e a invadir-me com aquela linguagem a que só nós temos acesso.
Contigo, todos os limites foram ultrapassados, libertei um verdadeiro eu e mais, nunca pensei sentir tanto prazer em dar tudo o que conheço de mim. Cada olhar, cada sorriso, cada parte do teu corpo que a minha mão percorreu, cada beijo, cada momento em que o meu corpo se juntou ao teu e se uniu formando apenas um corpo, uma alma, um prazer único.”

Tomás não resistiu. Aquelas palavras pareciam-lhe demasiado reais. Então, afastou os papéis e fez amor com ela. Nos seus ouvidos ecoavam gemidos de longas e intensas noites de paixão; sentia nas suas costas marcas de pele rasgada; no seu corpo havia gotas de suor que escorriam de um para o outro; na língua um sabor único e no ventre a fúria de um desejo louco e ardente.
Depois, sorriu saudosamente e continuou:

“No entanto, estes últimos dias não têm sido fáceis.
Revolta-me toda esta dor que sinto, o vazio por deixar de te ter, as saudades que vou sentir do teu abraço, do teu toque e o medo de nunca mais sentir algo semelhante.
Sinto-me a cair num abismo por não conseguir concretizar o meu maior desejo neste momento.
Os pensamentos não me deixam, nem eu a eles. Parece que tenho medo de deixar passar muito tempo sem pensar em ti, sem ter saudades tuas. Afinal de contas é tudo isto que me aproxima de ti quando estiveres longe, quando leres estas palavras.
Sei que muita coisa ficou por dizer, mas também sei que muitos olhares traduziram todo o amor existente que vive em mim.”

Tomás recordou palavras de um livro que tinha lido enquanto trabalhava no hotel, “As mais belas frases de amor são ditas no silêncio de um olhar”.
Assentiu com a cabeça, respirou fundo, consciente daquela verdade, e leu as últimas linhas:

“Se durante o teu sonho, por vales e dunas, te sentires sozinho e apenas as estrelas e a Lua te servirem de alento, pensa que neste mundo, alguém que te quer muito contempla esse mesmo céu que te acolhe.
Não estaria a ser sincera comigo, se por algum momento te tentasse desviar desse teu sonho. Eu própria já percorri essa caminhada e encontrei, finalmente, o amor. Desejo apenas que no final desse teu sonho me venhas resgatar e juntos possamos ser felizes para sempre.”
in "Carta Branca", 2006

2 comentários:

  1. Mágico!

    Como um hino ,uma exaltação ao mais nobre dos sentimentos.
    o escritor através de uma límpida,verdadeira e calorosa escrita torna este momento de leitura" tão,real","tão nosso"...
    Conseguimos « ´ver´ as lágrimas,a profundidade do olhar e o sorriso; ´sentir´ a magia dos abraços,o sabor do beijo,a união do corpo e da alma num prazer único»

    Sim,é preciso respirar fundo porque nos faz mesmo "cair no abismo..."

    Ana Luisa

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    1. Obrigado Ana.
      E assim é o amor... incondicional!

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