quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A ESTRELA CADENTE



"- Todas as noites do alto do meu ser, tirava uma fotografia daquele homem. Sentado numa espreguiçadeira no terraço da sua casa, no seu pedaço de terra. Pernas cruzadas, mãos nos bolsos, barba grisalha, sorriso nos lábios secos da idade e expressão de corpo usado. Sempre sozinho, ali se deitava e ficava. Misturava-se com as sombras da noite e falava os dialectos dos animais como que desejando boas noites ou comentando o céu, o vento ou a temperatura. A sua tranquilidade acalmava as plantas e, como recompensa, elas traziam-lhe todas as noites fragrâncias diferentes que queimavam como incensos. Passava noites inteiras a olhar o céu, desafiando a teoria do sono contando uma a uma, as estrelas que pontuavam o manto escuro e misterioso que estava por cima dele. Sem se dar conta que o observava e amava à distância, passava os olhos por mim inúmeras vezes e todas as noites eu era um algarismo diferente na sua contagem redonda pelo Mundo. Eu sou uma Estrela, sem oportunidade de ver a luz do dia, mas conhecedora, como ninguém, da noite. Já corri pela muralha da China, já iluminei o breu do Amazonas, já me confundiram com candeeiros gigantes nas grandes cidades mas é neste pedaço de África, com esta vista sobre a savana, olhando para este homem onde me sinto melhor. Chamo-me Cadente e ofereço a minha vida para que todos os seres possam pedir sonhos, ser mais felizes e tornar o Mundo melhor. Desde o primeiro dia que brilhei no céu que já sabia da minha missão e o dia de cumpri-la está próximo. O local está escolhido. Só falta o sopro de Deus para me precipitar do céu em direcção àquele terraço.

Todas as noites há despedidas. Lágrimas de luz cortam o céu até salinizarem com o excesso de velocidade e desaparecerem verticalmente para sempre. Ao princípio sofria com a perda de familiares e amigas, mas com o tempo fui aceitando o meu destino. Hoje, orgulho-me de ser uma estrela e de semear o amor na terra. Foi-me dito que nos tornamos anjos ao serviço de todos aqueles que nos virem cair e temos como missão executar todos os seus pedidos. Haverá experiência melhor do que essa?

Enquanto não sou a escolhida, deixo-me reflectir nos olhos daquele homem para quem a noite se tornou sua amante. Despeço-me sempre quando a savana ganha tons de laranja e aí, ele vai dormir para o quarto e eu brilhar para outro canto do Mundo.

Nas noites seguintes, o retrato foi o mesmo. Apenas a camisa mudava, ora quadriculada, ora riscada, mas sempre com os mesmos tons. Tons de terra, para que se confundisse com a rede da espreguiçadeira, com o chão em madeira do terraço e o pó adormecido da savana. Era um predador inofensivo que aprendera os truques do disfarce com o passar das muitas horas a ouvir o silêncio, a ver a invisibilidade e a seguir a intuição. Ninguém o via, mas ele via todos. Só não me via a mim.

Até que numa noite menos estrelada, encoberta por algumas nuvens, fui empurrada por uma respiração divina. Foi uma experiência, em tudo, nova para mim. A velocidade, a atmosfera, o medo, o calor das chamas, a saudade, o fim e um novo princípio. Percebi que apenas a estrela que cai ouve os pedidos de todos os seres que a viram cair. É uma experiência individual a que só se tem acesso com a morte: vemos mais, ouvimos mais, somos mais, vivemos mais. Mas é uma confusão. Homens, animais e plantas fecham-se em si próprios, buscando o seu desejo mais recôndito. As vozes sobrepõem-se, mas são todas perceptíveis. Umas doces e delicadas, outras amargas; umas fortes e confiantes, outras intermitentes e inseguras. As plantas pedem ventos apaixonados que as façam dançar com o seu sopro e polinizar o ar. Os animais pedem sombra para dormirem a sesta e chuva que lhes inunde a savana de alimento. Os homens pedem vacas e mulheres férteis e as mulheres pedem homens fortes que assegurem a continuidade da geração. Foram estes os pedidos que eu ouvi quando morri a alguns metros daquele terraço.

Quando me preparava para desaparecer, já na forma deformada de um anjo, um novo pedido ecoou da savana e dizia:

 - "O meu desejo é que voltes para de onde vieste porque preciso de ti no céu para me adormecer nestas minhas últimas noites, para me guiar quando partir para aí na viagem que marquei, mesmo antes de nascer, e que apenas aguardo confirmação do voo. A idade avança, o corpo definha mas a minha alma está maior que nunca. Sinto-a desprender-se mais e mais a cada noite que passa. Já nada me resta aqui senão a paciência e a certeza que vou deixar o pó do meu corpo entranhar-se com o pó da única terra que amei em toda a minha longa e linda vida, perto dos animais que já percebo e por baixo das plantas perfumadas que aprendi a respeitar. Quando largar este velho disfarce, quero reencontrar-te lá em cima, quero falar contigo e agradecer o teu amor por nós e por mim. Este pedido é a minha forma de te amar, porque entendo que mereces a vida e porque gostava de ser como tu, não ter asas e poder voar e ter o céu como fundo.Enquanto a minha alma não desata todos os nós que a vinculam ao meu corpo, tu és a luz que me acende a noite e seduz. Preciso de ti como da minha fé, por isso e por favor, volta para casa e brilha para mim quando chegares para saber que chegaste bem. O teu céu é o meu próximo destino."

A voz era diferente de todas as outras e o pedido, inédito e irrecusável. Nunca antes uma estrela cadente teve a oportunidade de voltar a casa. Eu seria a primeira. Mas antes de brilhar, lá do alto do meu ser, para este homem, que afinal também olhava para mim, tinha de cumprir todos os outros pedidos pela ordem que tinham chegado. Assim, como anjo que era naquele momento, voei até aos desertos mais próximos, calquei algumas dunas mais altas para que o vento, por elas, pudesse passar e oferecesse às plantas a dança que elas desejavam. Depois, pontuei a savana com várias sementes e adubo e fiz sombras, espremi algumas nuvens e choveu. Fui parteira de muitos nascimentos, as aldeias cresceram e assegurei-me que as crianças seriam fortes e saudáveis.

Havia passado muito tempo, mas a missão estava quase cumprida. Fechei o meu ciclo quando ergui os braços ao céu e subi. Foi uma viagem longa, mas estava em casa de novo e mais perto que nunca do amor daquele homem. Ansiosamente, procurei a minha filiação, alguém que brilhasse na mesma voltagem que eu, mas não vi ninguém. Ninguém me recebeu, ninguém me reconheceu e percebi que a minha família inteira já tinha descido. Apesar disso, fiquei feliz por estarem a cumprir o seu papel e sozinha, mergulhada no espaço dos meus pensamentos, aguardei o arrepio do dia e a emancipação da noite.

Eu gosto de ser estrela. É bom perder horas a ver os planetas girarem em torno do sol, ouvir as conversas entre a Ursa Maior e a Ursa Menor, conviver com Orion, Cassiopeia e Andrómeda, assistir à formação da Coroa Boreal e divertir-me com Cão Maior, Lobo e Boieiro.

E no momento em que um leopardo estrangulava o jantar, o dia deixou de respirar e a noite alimentou a savana. Pude, finalmente, brilhar e acenar que tinha chegado bem. Desde a sua declaração, que esperava pelo nosso reencontro e queria, naquela noite, falar com ele na linguagem muda do amor. Mas o meu brilho não foi suficiente e não o consegui ver. Encontrei em mim mais centelhas de luz, juntei-as todas e explodi no céu. Brilhei com a mais branca das intensidades, amanheci a noite, confundi plantas, animais, homens, mulheres e o próprio tempo, mas também não vi a espreguiçadeira. A noite foi escorrendo pelo hemisfério e ele não se sentou, não cruzou as pernas, não sorriu, não apareceu. As horas passaram e quando o dia me empurrou para o outro lado do Mundo apercebi-me de que talvez a sua alma tivesse desancorado, finalmente, do seu corpo e lembrei-me da sua ultima frase:- "O teu céu é o meu próximo destino." Sem hesitar, misturei-me com a poeira e com todas as estrelas da via láctea, entreguei o meu destino ao meu desejo e aproveitando a espiralidade da estrada de Santiago rebolei no céu até o encontrar. E encontrei."
in "Os Laços que nos Unem", 2008

2 comentários:

  1. Belo este momento de "Celebração". Por vezes, sabia bem ter um Avô Santos, sentado na poltrona e com a lareira acesa.
    Muito bom!!! :)
    Beijo,
    TG

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  2. Trouxe-me à memória um momento recente e único de amor incondicional.
    Há doze anos que alimentamos a fantasia que desceu à terra "numa estrelinha".
    Porque sempre temos "viajado" entre o Céu e a Terra pediu-me: "olha vó ,aquela que for primeiro ...sabes ...vai ter que voltar todos os dias...se fores tu ... aproxima-te devagarinho para não me assustares" . Promessa feita ,vou chegar devagarinho :)

    Ana Luisa

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