domingo, 30 de setembro de 2012

GRATIDÃO (6)


"Provavelmente deveria ter feito tudo isto ao contrário.
Ter lido o livro, ter ido ao Workshop e depois decidir-me, por mim. Agora, é quase a sensação de estar a ler um livro de um filme que já vi. Ao lê-lo, estou a ler-te. Estou a ouvir a tua voz e a olhar as tuas expressões. A cada ponto de interrogação, consigo ouvir a entoação que lhe davas, a garra com que transmitias (e transmites) aquilo em que acreditas. Hoje estou a ler-te em constante esgar de sorriso. Porque é tudo tão fácil quando nos apercebemos de nós.

Levei-te comigo para Itália, sem saber sequer que ias estar aqui. Um presente inesperado, de última hora. Como que mais um incentivo à minha decisão ou talvez mesmo, um não te esqueças do que decidiste. Por ti. Mas hoje, amanhã, depois ou mesmo mais tarde, se chegar aos cabelos brancos, nunca mais vou precisar de incentivos, na mesma medida em que nunca me esquecerei de ti. Serás sempre um marco. Um ponto de viragem. Uma página que virei, sem qualquer livro presente.

Quero falar-te porque também eu gosto de escrever. Quero contar-te a minha decisão. Estou só, em Itália. Estou e sinto-me bem. Pela primeira vez, oiço-me sem distrações. Estou em silêncio sem pensar. Demorei a fazer esta coisa dos projectos tipo Erasmus que se fazem quase nos primeiros tempos de faculdade. Tinha medo de me ouvir. Tinha medo de desiludir uma panóplia de pessoas que me rodeavam, não mais importantes que Eu.

Só contigo percebi que Eu ser importante, seria melhor para todos nós.

Hoje estou aqui sem o conforto de uma casa. Sem o meu quarto, as minhas coisas, a minha televisão. Com a internet limitada e sem o meu querido android operacional. Mas tenho o essencial e estou focada em mim, sem factores externos a afastarem o meu caminho. Sem desculpas. Tenho-me e estou completamente disponível para fazer o que sempre quis e para o qual só agora, verdadeiramente, me propus: trabalhar na área social, com crianças e jovens, independentemente da remuneração.

Hoje não tenho distrações. Problemas do dia a dia que não passavam de pequenas mesquinhices de quem não tinha mais nada que fazer. Com pouco, tenho mais. Muito mais. Consegui alcançar uma espécie de paz interior que me bloqueia o que não é importante ou essencial. O que vinha causar distúrbio e ansiedade. Só por isto diria que esta experiência já valeu a pena. Mas estou aqui apenas há uma semana e sei que ainda haverá muito mais para contar. Muito mais para me conhecer e, simplesmente, ser.

Jamais, na minha história, poderei não te mencionar.

Fizeste história na minha história. Acordaste-me da minha dormência. Abanaste-me os medos. Nada acontece por acaso e sei que, mesmo que nunca mais nos voltemos a cruzar, é este o intuito de cada um de nós nas nossas vidas. O dever foi cumprido. As pessoas não têm que ficar para sempre, mas estão porque têm que estar. Causando dor ou alegria, são fundamentais.
E tu foste fundamental.

Vou continuar a escrever a minha espécie de diário, as minhas palavras soltas e sei que estarás sempre presente nelas. Estará sempre um bocadinho de Gustavo em mim, bem como acredito que em muitas outras pessoas às quais já abanaste as suas vidas."


Sara

GRATIDÃO (5)


"São inspiradores os teus "post" diários, mas é no blog " que encontro " a serenidade, a paz . Mergulho, refugiu-me nele e aí permaneço em reflexão. Cada texto relembra-me um pouco de vida vivida. Se me permites ao "e tudo um segundo pode levar...", eu acrescento mudar, trazer felicidade. De louca talvez fosse apelidada por alguns mas... senti naquele dia 31 de Janeiro de 2009 ao sair sózinha e ilesa de dentro de um carro capotado, a poucos metros de uma ravina, após "brutal embate, seguido de capotagens", uma imensa serenidade. Senti que fui intencionalmente "atirada", que era um "acorda", "uma oportunidade". Sim, andava distraída pela estrada da vida. Estavam reunidas todas as condições para que um segundo me levasse mas, entre o cá e o lá senti renascer uma enorme gratidão, uma força que me enraizou de novo. Tudo se reforçou!!! Arrisquei -me a viver...
Com alguma estranheza as pessoas me ouvem dizer que só faço o que quero, estou onde quero e com quem quero. Assim tem que ser porque assim escolhi que fosse.
Que TRANQUILIDADE , que PAZ .
Se aquele segundo me tivesse levado, tanto tinha ficado por fazer, tanto tinha ficado por dizer, por viver, no verdadeiro sentido da palavra. Perdi o medo da morte e quando se perde este, os outros não existem mesmo. Ganhei de novo o direito ao sonho e, quando se ganha este, tudo faz sentido.
My own life.
Comecei então sózinha, desapegada e em silêncio o meu novo caminho. Aquele que inclui dizer "bom dia ,dia", todos os dias; aquele que inclui valorizar cada pequena coisa como se da maior se tratasse; aquele que me permite dizer um "sim" ou um "não" com a mesma facilidade; aquele que não me cala um "amo-te" que seja incondicioal. Agora tudo faz sentido: o percuso ,o aqui ,o agora , o que deixei lá atrás, os que saíram, os que chegaram, a tua presença.
Transcreves verdadeiros hinos, elevas dignamente a paixão, a fusão dos corpos e das almas de uma forma tão real que se consegue ver, ouvir, cheirar e sentir... intensamente...
Seguro firmente a mão para que não me saia de imediato um comentário e fico pelo "meu sentir"...
No dia do Workshop "Arrisca-te a Viver", fui assolada pelas mais variadas emoções e percebi que afinal tinha que voltar ao livro. Nem tudo estaria "bem resolvido". Lembras-te que antes de sair te disse que, quando nos voltássemos a encontrar mais mudança teria ocorrido? Pois meu querido ,a noite foi de reflexão, reli o que me escreveste, olhei-me no espelho e para dentro. O domingo foi de atitude. Senti alguma dor, cansaço, mas hoje estou mais feliz ainda."

Ana 

sábado, 29 de setembro de 2012

A PAIXÃO É "AGORA"!


Dás-te contigo quando tem de ser ou és apaixonado por ti?
Relacionas-te com as pessoas por interesse ou por paixão?
Trabalhas por dinheiro ou por paixão?
Ostentas o que tens ou és apaixonado pelos teus bens?
As tuas respostas a estas questões são meio caminho andado para te aperceberes do estado em que se encontra a tua vida. Se a tua verdade estiver sempre, ou maioritariamente, na primeira opção de cada pergunta, não esperes ser uma fonte de inspiração para ninguém, experimentar o afecto, atingir o sucesso pessoal dentro do campo profissional ou garantir uma verdadeira satisfação seja no que for.
Apenas a paixão te conecta contigo e te pode enlaçar às pessoas. Só a paixão te garante a capacidade de criar e a sensação de nos considerarmos merecedores.
E sim, mereces o que escolhes.
Se podes escolher viver apaixonado, por que razão escolhes viver desligado?
Uma vida sem paixão é uma experiência soturna, sem pontos de luz, onde as sensações são reduzidas a pensamentos.
A paixão é uma das únicas forças capazes de te trazer ao "Agora" e, na vida meu caro, tudo é "Agora". Nada é mais importante que tudo o que podes ser "Agora".
Queres apaixonar-te por ti? É "Agora".
Queres entregar-te a alguém? É "Agora".
Queres criar? É "Agora".
Queres divertir-te? É "Agora".
Nada mais existe para lá deste momento nem nada do que já existitu poderá ser suficientemente forte para te demover daquilo que é mais importante: a tua confiança na ação e a materialização de todos os teus desejos.
É a ação que te levará à mudança e te fará prosperar.
Ninguém, por natureza, é desligado de si. Ninguém, por natureza, é jogador. Ninguém, por natureza, se sente obrigado a fazer o que não gosta. Ninguém, por natureza, tem para ostentar em detrimento de ter para sentir.
Estás pronto para finalmente seres quem és?
Respeita a tua natureza.
Volta para casa...
Paz



sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O AMOR INVISÍVEL


“ A mais hostil das travessias no deserto é o Amor invisível. Ensinam-nos a atravessá-lo nas horas de menos calor, a evitar as tempestades de areia, a levar suplementos de água e todo o tipo de alimentos, mas ninguém nos consegue ensinar a não sofrer por Amor, a não derreter com tantos medos, a não desistir com tanta insegurança e a não desidratar com tanto silêncio. A conquista é a maior das travessias e o deserto, seja no sentido metafórico ou real, é a maior das aprendizagens. Eu estou a aprender a levantar-me, naquelas areias profundas e escaldantes, sempre que me fazes cair, rasteirado pelo teu silêncio que me mata aos poucos. Eu estou a aprender a viver a pão e água, a racionar o pouco que me dás e a estendê-lo até ao fim de cada dia. Estou a aprender a expor-me, a dar-me e a entregar-me incondicionalmente, mesmo não vendo em ti, uma ponta de ti própria. Estou a aprender o que ninguém me poderia ensinar e estou mesmo a sofrer por Amor. Encontro-me num deserto criado por mim, pelas minhas opções. Muitas vezes, entre as montanhas de areia que edificas à tua volta e que me impossibilitam de chegar a ti, pergunto-me porquê? Porque é que estou a obrigar-me a passar por isto se eu sou o vento da minha própria vida e posso mudar de direcção sempre que eu queira? A resposta vem quando olho para ti e não consigo deslumbrar mais nada que não sejas tu. A resposta surge quando fecho os olhos e tenho a certeza que te amo a ti e a mais ninguém. Agradeço-te, todos os dias, pelas tempestades de areia que sopras para os meus olhos, pela fome e pela sede que me fazes passar porque, apesar de nem imaginares, dás-me sombra de dia e cobertores de noite, para que possa continuar a resistir e a crescer dentro de mim. Acima de tudo, proporcionas-me uma luta contra mim próprio, um teste às minhas capacidades, porque o meu Amor por ti é invisível. Não o vês mesmo que te dê o Mundo, não o sentes mesmo que te abrace com toda a minha força nem acreditas nele porque tens demasiadas redes a prender o batimento do teu coração. Toda a minha caminhada pode ser em vão. Sei que posso sucumbir, subitamente, por um dia me dizeres que não consegues, mas prefiro acreditar que quem ama nunca desiste efectivamente, porque sei que mais vale amar-te e esperar pelo teu tempo interno do que vaguear perdidamente pelos falsos oásis da ilusão que rapidamente poderia alcançar. Apesar do cansaço, acredito que o nosso Amor é real e que ainda vou vencer essas dunas porque sei que estás aí e sei que sentes o mesmo que eu. É tudo uma questão de tempo e persistência porque a luz do meu Amor é mais forte que os raios do Sol e o combustível que esse sentimento me oferece, dá-me a autonomia suficiente para me auto-sustentar e continuar à tua procura. Otília, existem certezas que por enquanto só encontro nas palavras, mas que são tão fortes que me acalmam e me dão ar para continuar a respirar fundo. O Amor invisível que sinto por ti é esta luta pela sobrevivência em que travo comigo próprio as mais duras batalhas contra o ego e contra o orgulho. Uma vez mais, baixo a minha cabeça aos teus pés para sentir a minha alma elevar-se, levando com ela o meu corpo, até começar a subir os teus medos com uma força que nunca senti, ansiando o dia em que me consigas ver.
Amo-te.”  

in "Os Laços que nos Unem", 2008                                                                                                                             
                                                                                                                                              

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

E TU, ÉS O TEU NÚMERO 1?



"É fundamental reconheceres a tua importância na tua vida.
Por algum motivo nasceste, aprendeste a respirar e tiveste direito a um nome, nome esse que, em conjunto com as tuas características, te identificará eternamente como um ser individual, único e livre.
Haverá algo mais especial e precioso que isso?
Estou em crer que não, ainda assim, encontro muitas pessoas a quererem ser outras e outras ainda a querer acabar com elas próprias na esperança de, imediatamente a seguir, poderem vir a ser outro alguém. É o teu caso? Se for deve ser uma chatice, mas, também, se não te dás qualquer importância, que importância te darei eu? Já calculaste o perigo que corres por pensar desta maneira? Em menos de nada, estarás sozinho ou rodeado de gente como tu, ausente, e que meteu férias no inferno para sempre.
Não há nada nem ninguém que me possa substituir ao longo desta viagem que é a vida, nem nada nem coisa alguma que possa ser mais importante do que eu, seja em que momento for, pois só assim poderei ser útil aos outros, incondicional, e, só assim conseguirei valorizar quem me rodeia e reconhecer o mérito alheio.

É prioritário que sejas uma prioridade para ti, pois só assim poderás identificar-te com uma filosofia de vida ou criar a tua própria forma de estar, saber quem és, ser feliz, apaixonado e independente. Olha para ti. Será que estás na pole position da tua vida? Experimenta por uma hora e perceberás o que é seres o teu número 1.
O teu amor próprio é a ponte para o mundo e, como tal, não conseguirás chegar, verdadeiramente, a nada nem a ninguém se não te amares a ti primeiro. Se ignorares esta máxima, não passarás de uma ilha, onde, com o passar vagaroso do tempo, te começarão a escassear as provisões e acabarás por morrer como sempre estiveste, sozinho. Sem esse amor por ti não há liberdade, não há passos firmes nem convictos, não há sequer um caminho, uma orientação, nada. Não te esqueças que, na vida, tudo passa. Passam as pessoas, as coisas, a fé, as paixões, os amores assolapados, a juventude, enfim, tudo... tu ficas, apenas tu, e a única forma de conseguires aproveitar e suportar tanta exaltação junta, passa pela relação que tens contigo. A prioridade é um direito nosso, mais, diria mesmo, uma obrigação, a devida gratidão a Deus por nos ter facultado a oportunidade maravilhosa de nascer e estarmos aqui".
in "Arrisca-te a Viver", 2012

TU ÉS A SOLUÇÃO!

Uma vida sem problemas seria também uma vida sem soluções, sem a mínima consciência acerca da nossa capacidade de superação e entrega, sem qualquer referência inspiradora que nos pudesse ser útil a nós ou aos outros, sem paixão por nós mesmos, sem autoconhecimento, sem nada. Com isto não quero dizer que devamos andar por aí a criar problemas, nada disso, o que devemos é criar soluções, pois são elas que nos alavancam todos os índices de amor-próprio e confiança que precisamos, para nos descobrirmos enquanto pessoas e inspirar os outros a conseguir o mesmo. Os problemas nascem sozinhos, seja através dos acontecimentos inerentes à vida e que não controlamos, seja através das distracções que temos, mas as soluções, por outro lado, só se dão à luz mediante uma profunda vontade de viver, uma fé inabalável naquilo que queremos para nós e uma total consciência de quem somos e o que andamos aqui a fazer. E atenção, remediar é um problema tão problemático como o próprio problema ou pior, pois de tanto remediar o que não é remediável, um dia deixas de acreditar no que é possível. Aceita os problemas, são eles a ponte para tudo o que és verdadeiramente capaz e não há sabor melhor do que viver numa pele onde tudo é possível. A cada solução encontrada, mais mérito terás, mais és, mais poderás contribuir para com os outros. Soluciona-te.

EU CONSIGO, E TU?

Não posso vencer o teu medo, mas consigo demonstrar-te o tamanho do amor; não posso pôr um paraplégico a andar, mas consigo fazê-lo acreditar que existem inúmeras paixões que podem ser vividas numa cadeira de rodas; não posso acalmar a revolta de um injustiçado, mas consigo falar-lhe sobre o perdão; não posso mostrar o mundo a um cego, mas consigo fazê-lo viajar pelo mundo dos afectos; não posso obrigar-te a usar todo o teu poder, mas consigo salientar tudo o que há de tão especial em ti; não posso mudar a tua vida, mas consigo provar-te que podes mudá-la.
E tu, o que é que consegues fazer por ti?

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

LEVA-ME CONTIGO



"Leva-me contigo vida.
Vamos fugir deste mapa cinzento e só regressar quando as cores da nossa vida se tocarem numa trincha larga e infinita que nos ligue eternamente.

Quero apaixonar-me por ti e que vivas em mim. Quero ser a infinidade contigo e caminhar com a simplicidade de uma mão dada, no caminho que ambos pintarmos.

Seremos artistas das quatro estações, nos quatro cantos redondos do mundo.

Leva-me contigo para um lugar qualquer, longe ou perto, onde exista um espelho mágico tão grande, que não tenha outra alternativa senão olhar-me nele, autodescobrir-me para além daquilo que os olhos se apercebem e finalmente encontrar-me comigo e com o amor. Pode ser aqui, ali ou acolá. Para norte, sul, este ou oeste. Para o calor de um deserto ou para o gelo do árctico, para uma praia encantada de água azul cristalina ou para o interior de um castelo no cimo de uma montanha. Leva-me para esse sítio encantado, onde me possa libertar dos condicionamentos do tempo e das suas ilusões e aprenda a desligar a mente e a viver no único momento que é real, o presente.

Convida-me a olhar em volta sem interpretar, nem julgar. A ver as luzes, as formas, as cores, as texturas e a sentir a presença silenciosa de cada objecto. Não quero continuar a olhar sem ver, a ouvir sem escutar.

Por isso, leva-me nos teus sentidos e distrai os meus para que não saiba para onde vou, não veja o destino na sala de embarque, não ouça o ruído da partida nem me aperceba se me levas pelo ar, pelo mar, pela terra ou, simplesmente, por magia. Surpreende-me.

Acredito em ti como nunca acreditei e reconheço em mim, uma máscara enferrujada, que preciso deitar fora, e um muro intransponível que preciso derrubar.

Ainda não sei o que é essa liberdade, mas conto contigo para me levares lá.

Não me digas que não podemos ir e emite-me esse bilhete...peço-te. Sei que esperaste por mim todos estes anos, mas só agora estou pronto para derrotar os meus medos e entregar-me a ti.

Quero despojar-me do meu passado e renascer.

Leva-me vida e eu levo comigo apenas o necessário para os primeiros passos, pois sei que me providenciarás de tudo o que necessito.

Ouvirei o rufar triunfante da minha respiração e o palpitar do meu instinto. Verei a sedução condutora da natureza e através do seu manto de luz guiar-me-ei pelas estrelas, ventos e marés, até dar de caras comigo num lugar qualquer onde o tempo não existe e as pessoas possam sorrir, simplesmente, por saberem que possuem o bem mais valioso de todos...TU.

Não sei se este lugar existe ou se o espelho mágico não passa de uma criação espontânea da minha cabeça, como sendo a única saída para enfrentar medos que tenho receio de perceber. Mas sei que só escrevendo esta carta é que posso ter hipótese de lá chegar e me encontrar, pois as palavras apontam para além daquilo que elas são, abrindo caminhos que só poderão ser percorridos, mais tarde, pela provação. E eu quero sentir esse sabor...

Leva-me contigo, pois só assim poderei renascer dentro do meu próprio coração e ter alma de pássaro. Só assim, poderei sentir a sintonia e a unidade com alguém que possua uma alma esvoaçante do tamanho da minha e me ame da essência, nesta viagem tão misteriosa que é a autodescoberta.

Leva-me contigo da escuridão labiríntica à claridade, do medo ao amor, do constrangimento do tempo ao silêncio da paz interior.

Leva-me contigo até às portas da felicidade.”
in Carta Branca, 2006

terça-feira, 25 de setembro de 2012

E TUDO UM SEGUNDO PODE LEVAR



"- Sabes que te amo, não sabes Íris?

Ela anuiu humildemente, a meio das escadas que davam entrada ao edifício.

- Amo-te.

Depois de o dizer a sorrir, colocou o indicador direito na pequena alavanca que comandava o vidro eléctrico, premiu-a, e enquanto a pequena janela se fechava, Íris, para seu próprio espanto, encheu a dita palavra de voz e disse-a também, baixinho.

- Amo-te.

Para seu desconsolo ele não a ouvira, apenas ela no mundo a escutara, e quando o motor começou a rosnar juntamente com a música, fiel companheira dos dias do seu namorado como ela própria, correu para o carro e desenhou-lhe um coração no canto superior direito do vidro da frente, embaciado e por isso macio, na esperança que uma coisa substituísse a outra e para, mais uma vez, não o deixar sem a resposta que merecia.

 “Preciso de um anestesista... saiam da frente... rápido...”

Quando pisou o pedal direito, deixando a namorada para trás, rumo à ultima noite em casa dos pais, nunca pensou que a meio do caminho o destino lhe quisesse dar outra morada.

O fim da custódia e a certeza de que no próximo pôr-do-sol ia estar de novo, e para sempre, na casa dela, fê-lo entrar numa espiral de afirmação tão emocionante que mesmo com o piso molhado não se coibiu de ver o ponteiro do velocímetro escalar números inadequados às condições da estrada. Talvez por levar o coração do seu amor estampado à sua frente, qual candeia acesa, para lhe iluminar o caminho, o certo é que arriscou e apesar da culpa não ter sido sua, a violência do embate que estava para acontecer foi com a velocidade que escolhera.

As sombras da madrugada revelaram-se à passagem pela variante da nacional nove, no sentido Alcabideche – Sintra, quando já passavam das três da manhã.

Escondidas entre as copas de algumas árvores e disfarçadas pelo breu, reuniram-se em congregação à beira no alcatrão para assistirem à possível explosão de mais um corpo e à perdição da sua respectiva alma.

Feliz, inocente e alheio à realidade do outro mundo, devorou a estrada sem pressentir nada. Devido à hora e ao facto de ser dia de semana, a grande recta estava sem movimento e apenas mais um carro parecia estar acordado, pois, lá ao fundo, apenas vislumbrava duas luzes brancas apontadas a si. O R&B era, assim, a sua única verdadeira companhia na viagem. Naquele momento as colunas do seu bólide gritavam “End of the road”, dos Boyz II Men e ele gritava com elas, apaixonado até à ultima nota, até que poucos segundos depois, a meio do primeiro refrão quando a letra dizia “... you belong to me, i belong to you...”, os mesmos dois focos de luz que avistara, instantes antes, estavam em cima dele. O espectáculo pelo qual todas as almas perdidas aguardavam estava a milésimos de segundo de acontecer, pois o maldito carro circulava, afinal, na mesma faixa de rodagem, do mesmo lado dos separadores, em contramão. Sem tempo de reacção para deixar de acelerar sequer, entregou-se às suas próprias mãos e estas, empurradas sabe-se lá por quem, apenas tiveram tempo de guinar o volante, cento e oitenta graus à direita, desviando o carro de um embate frontal e assim evitar que a luz intensa dos faróis o elevasse, imediatamente e à força, para o céu.

Nesse preciso instante, com o piso molhado e à velocidade que ia, soube que algo de mau lhe poderia acontecer.

Consumado o desvio do prevaricador e do final, certo, da estrada da sua vida, fechou os olhos, contraiu os músculos, como se quisesse dizer ao corpo que não o ia largar, e gelou. Passou menos de um segundo e de repente tudo perdera o sentido ao esmagar-se, de frente, contra um separador de betão que se encontrava na berma da estrada, ali colocado há poucos dias para separar a estrada de uma zona residencial.

Esse primeiro embate apagou-o.

“Chama-se João Maria Gutiérrez de Almeida, tem vinte cinco anos e a família vem a caminho...”

Não assistiu à tentativa do automóvel dar a vida por ele. Não viu a frente desfazer-se, o coração com as impressões do amor da sua namorada explodir em centenas de estilhaços, a capota de lona rasgar-se por cima da sua cabeça, o carro ganhar asas, ser desfeito no ar e depois em terra, às cambalhotas e em consecutivos ricochetes nos separadores, enquanto a música que lhe enchia a alma ao lembrar-lhe que pertencia a alguém se calara com ele e dera lugar ao som do aço torcido e da chapa esmagada.

Silêncio.

Não houve gritos, não houve murmúrios de dor, não houve gente para acudir e a linguagem das almas moribundas que testemunharam o ocorrido era inaudível aos humanos. A única pessoa que podia ter prestado auxílio à vítima, ausentara-se da sua responsabilidade e, em contínua infracção, possuído por uma inconsciência demente, prosseguiu o seu caminho como se não tivesse presenciado o súbito desaparecimento de dois focos de luz, mesmo à sua frente, nas sombras da noite.

Cada segundo a mais era um segundo a menos."  


in "A Dança da Vida", 2010

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Bloco de Notas (1)

- Sempre me ensinaram que não se podia dizer tudo o que se pensava e que nem sempre, quase nunca, se podia fazer o que se desejava; cedo aprendi que era precisamente esse o motivo pelo qual essas pessoas não eram felizes.
Paz

- A mestria de uma pessoa não está tanto no que ela faz, diz ou escreve, mas mais, muito mais, na capacidade de aceitar tudo o que os outros pensam acerca disso.
Paz

- O melhor líder não é aquele que lidera os outros, mas sim aquele que promove a auto-liderança em cada um.
Paz

- O mal de muita gente boa que temos neste país é que esmorece de cansaço e sabota as suas próprias convicções ao tentar agradar sempre a todos. Sei bem o que isso é, mas já não padeço desse problema. A minha voz soará sempre que entender mesmo que nada me perguntem e dos meus dedos sairá sempre escrita a minha verdade mesmo que não ma peçam. Quem gosta gosta, quem não gosta não gosta. Alguns cães hão de ladrar, outros tentarão morder-me, mas a minha caravana continuará a passar.
Paz

- Só não consegues quando não acreditas.
Paz


O PRINCÍPIO E O FIM, O AMOR!




"Havia qualquer nela que o excitava. Que o fazia roer as unhas e comer as peles já em sangue, que lhe prendia o pensamento em cantos escuros, paredes esfoladas e elevadores encravados. Havia qualquer coisa nela que o matava, que o fazia olhar para o relógio, vezes sem conta, e assistir ao tempo castigar-lhe a vida, levando-a sorrateiramente, sem que lhe desse uma pequena esperança para se assumir e mostrar-se, para que ela percebesse que ele estava ali, a apenas alguns metros de a possuir. Insistiu. Desviou-se um passo milimétrico para a direita, acatando as coordenadas precisas dos seus verdes olhos tensos e percebeu que já estava no sítio certo, no campo de visão de quem queria estar. Estavam agora mais perto, embora ela continuasse sem perceber, por ter a mira ainda desfocada. Pegou numa taça gelada de champanhe francês para lhe arrefecer o corpo e deixou-se estar na quietude agitada do seu corpo. Tinha a cabeça inclinada para baixo e os olhos subidos, fixados, à espera de um súbito sinal que, teimosamente, não aparecia. O tempo expirava mas, na sua cabeça, as certezas respiravam cada vez melhor. Os longos cabelos acentuavam-lhe o rabo, o mesmo rabo que ainda iria tocar, agarrar e esmagar. Eram castanhos-escuros e escorregavam-lhe, numa ondulação perfeita, pelas costas mais femininas que já tinha visto, as mesmas costas onde ainda iria vincar as suas unhas e arrancar tudo o que estivesse no caminho descendente das suas mãos. Ele via-a sorrir, gastar o batom e as palavras em cumprimentos sucessivos que não sentia e que enganava com o olhar. Percebia à distância que mentia com todos os dentes daquela boca vermelha, boca essa que ainda iria gritar nos seus ouvidos o seu nome, morder o seu peito, molhar-lhe a pele e pedir mais. Havia qualquer coisa nela que o transportava dos oito aos oitenta. Do carinho ao descontrolo. Da vida além da vida. Avançou dois passos na direcção do preto do seu vestido justo. Já tinha bebido mais duas taças do mesmo champanhe, já sem origem nem sabor, descaracterizado pela proximidade de um cheiro intenso, envolvente, que lhe arrepiava as células e levantava ,discretamente, o sexo. Era a vez do toque de uma voz aveludada mas rouca lhe contornar o corpo já suado pelo calor ardente de um peito eriçado que podia com relativa facilidade alcançar. Mas ainda não queria. O tempo já não corria contra ele, corria como ele queria. Uma confiança cega percorreu o seu corpo, libertou a sua mente e deu-lhe a maestria de brincar com o tempo, de alongar a noite e atrasar o dia. Ainda era cedo e só queira apanhar-lhe as pernas quando ela percebesse que não tinha como fugir e que era vítima de si própria. A música começou a tocar mais alto. As luzes brancas despediram-se e as negras eclodiram. Ela transformou-se numa silhueta desenhada a compasso, com curvas perfeitas, que até o escuro se sentia tentado a tocar. E no meio do embaraço, sem respeitar a sua vez, tocou-lhe ele. Ela sentiu, mas não acusou. Ela gostou, mas não admitiu. Ela ficou, mas saiu. Ficou na mão dele, mas perdeu-se nas sombras. Ele cheirou e beijou cada um dos cinco dedos que haviam lambido o seu ombro nu, brilhante e macio, até que eles voltassem a ser seus. Havia qualquer coisa nela que o fazia ir atrás. Que o fazia esquecer que estava em público, que lhe aniquilava a consciência e envenenava o discernimento. Sentiu que não podia ficar parado e por isso partiu em busca do seu final de noite e reinício de vida. Vasculhou todos os ambientes, revistou todas as pessoas, ausentou-se de si para poder olhar de mais alto e nada. Ela não estava em lado nenhum. A dança misturou os cheiros, a música engoliu os outros sons e as luzes apagaram as formas e distorceram as expressões. Pela primeira vez, desde que entrara naquela casa, deixou de a ver e um estranho sentimento de angústia deu novo fôlego ao tempo. Haviam passado duas horas e o sentido solar dos ponteiros do relógio indicavam a proximidade de um novo dia. Um dia que não podia nascer sem estar consumado o que sentia dentro dele. Procurou a paz fora de casa, olhando para um céu menos escuro do que quando entrara e lá estava ela. Encontrou-a sozinha, repleta de mãos à sua volta, encostada a um pilar branco que segurava uma das fachadas da casa e que dava para o jardim. Segurava na mão esquerda e na face um copo e um olhar vazio. A noite ia longa como o seu cabelo e o vestido amarrotara-se de tanto a proteger do roçar de estranhos como ele. Ali, o silêncio era mais alto que a música e apenas o som estalado e esmagador de um caminhar se fez ouvir. Naquele momento estavam a poucos passos, a menos que os dedos de uma mão. Voltou a cheirá-la e a sentir o mesmo arrepio. Ela apercebeu-se de um certo estremecer, encheu o olhar e encarou-o. Era ele. O homem da sua vida. Acreditava no desdobramento da Alma e por isso sentiu que apesar de estarem perplexos, de olhos fixados um no outro, já estavam abraçados, misturados numa chuva miudinha de Inverno que lentamente alagava o chão. De regresso à realidade física sentiu que não havia como escapar, nem queria. Certificou-se que tinha derrotado de uma vez por todas o tempo e que aquele era o seu destino imediato. Ia mesmo acontecer. As suas almas convidaram os seus corpos para que eles se pudessem saciar. Confirmaram a sua presença e uns instantes mais tarde apareceram. Já não havia dedos a separá-los. Estavam juntos na mesma poça de água prateada. Ela tinha os olhos brilhantes e profundos, pintados de castanho-escuro, com um anel preto a circundá-los, pontuado com pequenas estrelas esbranquiçadas. Eram a extensão daquele céu que os acolhia e neles estavam inscritas palavras de um dialecto muito especial, mais antigo que os velhos dialectos. Eram palavras que haviam nascido com o homem e que apenas uma alma gémea poderia reconhecer. Naqueles instantes, entre a confirmação dos corpos e o primeiro toque, ele reconheceu-lhe todos os movimentos. Já sabia o jeito dela, a forma como sentava o corpo numa das pernas, como descaía a cabeça sobre um dos lados do pescoço, como respirava livremente pelas narinas e como impedia a rebeldia de certos cabelos lhe entrarem pela boca. Até a forma como ela se assustava, por ter deixado cair o copo, voluntariamente, no chão para libertar o seu lado canhoto o fez recuar numa memória perdida. Houve um sentimento de familiaridade. Numa quietude incisiva, mergulhou na noite daqueles olhos e apercebeu-se de marcas de um outro mundo que não conseguia alcançar. Identificou-se com um sentimento que também estava a sentir naquele momento e sentiu no coração um sopro que lhe tirou o ar e encheu de vida. Percebeu que eram mais do que aquele homem e aquela mulher, que eram maiores que aquele espaço.

Passou-lhe pela cabeça que poderiam ter decorrido vidas sem se encontrarem mas, finalmente, estavam ali, frente a frente, a boiar quase à deriva num rio que outrora fora poça, onde a cor prata ia ganhando mais brilho com o nascer de um dia anunciado. O som da chuva que, insistentemente, lhes caia nos pés foi interrompido pelo tom grave de uma voz:

- Eu sabia que te estava a atrair para mim e que mais tarde ou mais cedo me encontrarias e me abordarias com o mesmo olhar que fizeste.                                                                           
Ele assentiu e ela continuou calmamente:

- Por isso é que me afastei da multidão e me encostei debaixo da chuva, para que pudesses respirar o meu cheiro que só a água do céu sabe apurar e que apenas tu podias reconhecer.

- Sabes quem eu sou? Ainda te lembras de mim? - Perguntou-lhe, com o punho fechado e o pulso em riste, mostrando-lhe a fidelidade amarela.

- Eu sei tão bem quem tu és como tu sabes quem eu sou. Desde que senti que estavas naquela sala, nunca mais consegui estar lá dentro. Apetecia-me despir e ser tua. Apetecia-me que jorrasses no meu corpo as taças de champanhe que bebeste e que as bebesses levando na tua língua pedaços de mim.

Depois do que ela disse e do que ele ouviu, nenhum dos dois soube ao certo quanto tempo passou, talvez menos que um instante, até a conecção ter sido feita.

- Dá-me a mão. - Pediu ela.                                                                                                            
O toque desencadeou um súbito estado de excitação e num rasgo de dor boa deixaram-se engolir pela evidência. A forma como se agarraram tirou todas as dúvidas ou medos de se estarem a entregar a um estranho. Eram sobejamente conhecidos um do outro e havia uma liberdade para desfrutar. O beijo era um regresso a casa. Os lábios moldaram-se perfeitamente como se nunca tivessem beijado outras bocas, as línguas salgadas lamberam-se vorazmente durante quilómetros atenuando distâncias e o sabor era tão bom que conseguiram perdoar o tempo. Não conseguiram fechar os olhos uma única vez. Queriam tudo. Queriam ver o beijo, senti-lo e ouvi-lo. As bocas abertas lutavam, como dois leões-marinhos por mais território numa luta onde não havia feridas nem derrotados. Lutava-se pelo Amor, a fonte inesgotável da vida. O ar não entrava mas respirar também não era o mais importante. Ela desapertou-lhe as calças, demasiado justas para o tamanho do seu sexo, aliviando-o, e com o desejo doce da sua mão fê-lo estremecer de prazer. Por sua vez, a mão dele subiu, sem respeito, pela perna dela em direcção ao rabo que prometera a ele próprio agarrar. Fê-lo com tanta força que ela gemeu num grito sussurrado de ardor e nem quando a língua lhe saiu da boca para lhe violar o ouvido em círculos molhados, conseguiu parar de sussurrar: “come-me”, “come-me”, “come-me”. Ele baixou-lhe as alças do vestido e pela primeira vez pode apaixonar-se pelos seus seios. Estavam arrepiados como os seus e contra os seus agitaram-se numa fricção angustiante de tão boa que era. Apeteceu-lhes chorar e nunca souberam se chegaram a fazê-lo ou se eram apenas gotas de um final de noite de Fevereiro. O longo casaco cinza que ele levava vestido já estava emerso no chão, confundindo-se com o cinzento-escuro da pedra, a camisa preta já tinha menos três botões, no seu peito já estavam cravadas três unhas no sentido descendente que com o passar dos segundos iam ganhando uma cor vermelha e as calças há muito que andavam perdidas pelos joelhos. A chuva continuava a cair, sem piedade, sobre os dois e o peso da roupa era substituído aos poucos pelo peso dos cabelos molhados, já sem forma nem corte. As cuecas, puxadas pelo quase desespero, foram-lhe rasgadas pela anca deixando-lhe a pele a queimar mas, por apenas breves instantes, pois a água do céu apressou-se a apagar o pequeno incêndio e, involuntariamente, levou-as na corrente que se apressava aos seus pés. Ela deu-lhe uma perna, ele apanhou-lhe a outra e subiu-a pelo rabo. Encostou-a ao pilar e de costas para o jardim, entrou no seu íntimo com a sua intimidade aguçada. Não tinham protecção mas também não havia razões para se defenderem. Não houve atrito. Não houve conflito. Mais uma vez os moldes eram perfeitos. A chuva já não conseguia molhar mais e mesmo assim, não era tão molhada como o prazer molhado que lhe envolvia o pénis entre aquelas duas paredes. Trocaram velocidades, ângulos, forças. Largaram o pilar e dançaram em círculos perfeitos sobre a relva e a céu aberto, cada vez mais aberto com o nascer do dia. E foi num banco do jardim, quando a sentou em cima dele que se olharam e decidiram, sem palavras, explodir um dentro do outro. Ele agarrou-a pelo rabo, marcado com dez dedos e puxou-a para si. Ela inclinou a cabeça para trás, sentou as mãos nos joelhos dele, apontou os mamilos para a claridade envergonhada e deslizou-lhe pelas pernas molhadas sem parar. O orgasmo chegou numa convulsão sintonizada. Gritaram muito, disseram coisas, tiveram espasmos, tremeram de frio e de calor e abraçaram-se. O fogo do Amor aclarou, finalmente, o céu e os primeiros pássaros da manhã puderam ouvir os ecos da noite ainda viva. A chuva calou-se com o final da madrugada, tal como eles, pois a alegria que sentiam poupou-lhes o embaraço de terem de dizer alguma coisa. Assim, apanharam a roupa enlameada, vestiram-se da forma que era possível e abandonaram juntos a casa. À saída, olharam-se uma última vez, para depois virarem em direcções opostas, rumo a mundos diferentes.

A tranquilidade esboçava-se nos seus rostos, à medida que se iam afastando e lembrando da noite em que permitiram que a felicidade entrasse nos recônditos mais profundos das suas almas. Em uníssono, pediram que o mundo não pronunciasse palavra, nem som, enquanto os seus pensamentos deambulassem naquele cenário de ternura e cumplicidade, onde os seus corpos lânguidos, nus e sedentos se fundiram e partiram num voo dulcíssimo de prazer. Os gritos, que rasgaram a quietude do sono dos justos e invadiram o retiro dos inocentes, sem dó nem piedade, ainda ecoavam nas suas cabeças numa necessidade atroz de revelar ao mundo a sintonia entre dois seres, numa emergência desmesurada de ascender aos céus e eternizar o maior acontecimento a que se pode assistir: a entrega. Não reprimiram as lágrimas e renderam-se em confissão profunda, quase religiosa, aos encantos do Amor."

in "Os Laços que nos Unem", 2008

domingo, 23 de setembro de 2012

DE UMA MULHER ESPECIAL...



"Abraçou-a, trocaram lágrimas e ela entregou-lhe um envelope. Fotografaram um último olhar e virou costas.
Depois, apanhou um táxi e dirigiu-se ao aeroporto. Durante a viagem, e sem conseguir amansar o desejo de a ter de novo, abriu o envelope, encostou a cabeça para trás e leu-a:

“As palavras escritas são o único meio pelo qual posso tornar eterno o que foi vivido durante o tempo… o nosso tempo. Não é fácil, nem mesmo possível transcrever o mundo dos sentimentos, tal como os sentimos. As pequenas sensações obtidas nos pormenores, jamais poderão ser descritas como uma história que lemos num livro. Essas histórias apenas servem para alimentar os nossos sonhos. Por sua vez, os sonhos só alimentam a alma quando nós próprios temos o privilégio de ser os protagonistas da mais bonita experiência de viver. Viver o que se sente, viver as emoções, viver o prazer, viver através do corpo, através de todo um mundo que existe dentro de nós.
Por muita tinta que todas as minhas canetas tenham, nunca será possível passar para o papel uma ínfima parte que seja de tudo o que pude viver contigo, tudo o que senti e tudo o que sinto neste momento ao escrever-te.”

Tomás interrompeu a leitura, fechou os olhos com força e logo duas correntes salgadas percorreram o seu rosto. Pensou, por momentos, que talvez fosse melhor parar. Mas ali, à sua frente, exposto em simples papéis, estava o coração daquela mulher, aquela que o amou incondicionalmente. Parar de ler seria matá-la dentro de si:

“Foi como uma viagem ao imaginário em que tudo acontece, em que tudo é sempre melhor e melhor, bonito e mais bonito e nunca cansa. Já alguma vez me ouviste dizer que estou cansada de sorrir? Que me fartei de ver o pôr-do-sol? Já alguma vez te disse que a Lua era feia? Que estou farta de ver o azul do céu? Não! E tenho a certeza que tu também não! Esta é, talvez, a forma mais aproximada que encontrei para explicar o que sinto. Nunca foi possível fartar, cansar de olhar para ti, para os teus olhos, para o teu corpo.
Espero do fundo do meu coração e da minha alma poder tornar eterna, dentro de mim, a magia desta energia que sinto ao pensar em ti e em tudo o que vivemos.
Sinto-me a pessoa mais importante e mais orgulhosa do mundo por ter escolhido viver esta experiência contigo e, sinceramente, espero poder encontrar-te, mesmo que seja na velhice, para te abraçar com a força da minha gratidão e para voltar a sentir a profundidade do teu olhar a entrar dentro de mim e a invadir-me com aquela linguagem a que só nós temos acesso.
Contigo, todos os limites foram ultrapassados, libertei um verdadeiro eu e mais, nunca pensei sentir tanto prazer em dar tudo o que conheço de mim. Cada olhar, cada sorriso, cada parte do teu corpo que a minha mão percorreu, cada beijo, cada momento em que o meu corpo se juntou ao teu e se uniu formando apenas um corpo, uma alma, um prazer único.”

Tomás não resistiu. Aquelas palavras pareciam-lhe demasiado reais. Então, afastou os papéis e fez amor com ela. Nos seus ouvidos ecoavam gemidos de longas e intensas noites de paixão; sentia nas suas costas marcas de pele rasgada; no seu corpo havia gotas de suor que escorriam de um para o outro; na língua um sabor único e no ventre a fúria de um desejo louco e ardente.
Depois, sorriu saudosamente e continuou:

“No entanto, estes últimos dias não têm sido fáceis.
Revolta-me toda esta dor que sinto, o vazio por deixar de te ter, as saudades que vou sentir do teu abraço, do teu toque e o medo de nunca mais sentir algo semelhante.
Sinto-me a cair num abismo por não conseguir concretizar o meu maior desejo neste momento.
Os pensamentos não me deixam, nem eu a eles. Parece que tenho medo de deixar passar muito tempo sem pensar em ti, sem ter saudades tuas. Afinal de contas é tudo isto que me aproxima de ti quando estiveres longe, quando leres estas palavras.
Sei que muita coisa ficou por dizer, mas também sei que muitos olhares traduziram todo o amor existente que vive em mim.”

Tomás recordou palavras de um livro que tinha lido enquanto trabalhava no hotel, “As mais belas frases de amor são ditas no silêncio de um olhar”.
Assentiu com a cabeça, respirou fundo, consciente daquela verdade, e leu as últimas linhas:

“Se durante o teu sonho, por vales e dunas, te sentires sozinho e apenas as estrelas e a Lua te servirem de alento, pensa que neste mundo, alguém que te quer muito contempla esse mesmo céu que te acolhe.
Não estaria a ser sincera comigo, se por algum momento te tentasse desviar desse teu sonho. Eu própria já percorri essa caminhada e encontrei, finalmente, o amor. Desejo apenas que no final desse teu sonho me venhas resgatar e juntos possamos ser felizes para sempre.”
in "Carta Branca", 2006

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

DESISTIR? SÓ SE FOR DE TE OUVIR!

Desistir só é opção para quem não acredita e se não acreditas também não mereces, portanto aprende a agraciar os persistentes, os diferentes de ti. Sim, já que não consegues nada, esforça-te pelo menos para reconhecer os que conseguem tudo. Só isso te permitirá um dia olhar para eles e querer acreditar como eles, ser inspirado por eles. Se julgares que é mera sorte pensarás sempre no azar que tens e meu caro, enquanto essa ideia ingrata não te sair da cabeça, não mereces tu outra coisa.
Acreditar faz e fará sempre a diferença, pois as soluções e as ferramentas para agir abundam num estado de confiança. Portanto da próxima vez que chamares alguém de sortudo, pensa primeiro no que ele teve de acreditar e tu nunca acreditaste, nos obstáculos que ele superou e que tu nunca ousaste saltar, em todas as vezes que persisitiu e na primeira que te fez desistir, no sonho que ele vive e na estupidez que tu carregas. Não é sorte meu menino, é mérito.
Quem te manda não acreditar... em ti?

GRATIDÃO (4)


Boa tarde Gustavo.
Inspirado pelas suas palavras e pela forma como me sensibilizam, deixei fluir em mim o sentimento que me transmitiram e, sendo eu apenas um cabo raso dessas mesmas palavras, escrevi este poema de que me orgulho muito.
Obrigado pela inspiração. Espero que aprecie.
Bem Haja.

"Arrisca-te a viver,
num otimismo em estado líquido,
que te ajude a saborear,
o que realmente sentes que significas.
E nessa profunda vontade de viver,
liberta-te desse sentimento obstruído,
e prepara-te para tua vida controlar,
acreditando no que para ti planificas.

Arrisca-te a viver,
Desafia a tua trepidez.
Não tenhas medo de arriscar,
Por que acabas por perder,
de pelo menos por uma vez,
a possibilidade de acertar.

Arrisca-te a viver.
Aprende a não desistir.
Faz por, a dádiva da vida, merecer
a honra de quem soube persistir.

Arrisca-te a viver,
e nunca te esqueças desse presente agradecer.
Arrisca-te, simplesmente, a viver."


Nuno Freitas

"Mais Mulher", Sic Mulher, 2012



"Entre Nós", Sic Mulher, 2012



A FABU"LOLA"

Ontem fui a um canil na perspectiva de encontrar uma cadelinha que pudesse estar à altura de uma mulher fabulosa que conheço, pois seria essa a sua prenda de aniversário. Quando lá cheguei, percebi com a sinceridade de um único olhar que, afinal, estavam todos à altura de serem adoptados, fossem eles cegos, mais novos ou mais velhos, tivessem chumbos na cabeça ou um ar aparentemente mais feroz. Percebi que talvez esse meu primeiro pensamento fosse a única coisa que destoava daquela bela missão: resgatar um deles. Foi mais um estalo de luva branca, daqueles que gosto de sentir para perceber que nunca estou desperto para tudo. Enfim, rapidamente me redimi do meu pensamento e entreguei-me... a eles. Foi emocionante passear por um espaço onde se vive os animais com tanto amor, respeito e afecto. Foi magnífico falar com eles e de ir às lágrimas quando eles pediam "leva-me contigo". E muitos pediram... e muito me controlei. Tinha de ser, temos todos de cumprir esta missão. Enfim, lá escolhemos a tal cadelita. Linda, desconfiada e medrosa. Recordo-me de olhar para ela a dar os seus últimos passos no canil e de me perguntar o que estaria ela a dizer-se a si mesma. Nunca saberei, o que sei é que ontem foi mais um dia que valeu a pena, foi mais um dia em que me senti capaz de fazer o bem e de interpretar que posso sempre ser melhor.
A mulher fabulosa amou a surpresa e pode agora viver momentos fabulosos com a igualmente fabulosa "Lola".
Isto não é fabuloso?

GRATIDÃO (3)


"Gosto!
Gosto desta nova forma de comunicares bem directa e afiada. Mexe, provoca qualquer coisa. Ninguém fica indiferente. Nunca!

Será este o teu novo desfio?... 365 novos dias de comunicação bem directa e diria se me permites... provocadora?!...

Seja o que for pelo que for e quando for, GOSTO!

Gosto de te ler, de reflectir, de me incomodar, que me incomodes, gosto de fazer um Like, de me apetecer dar-te um abraço pela coragem das palavras ousadas, da sensação de incómodo...
Gosto do tom de provocação, pelo menos para mim, é, e funciona.

És um ser humano fantástico.
Das pessoas que apesar de muito distante me faz parecer que nos conhecemos, pois o que nos move, atrevia-me a dizer, é muito semelhante, que me identifico e com quem me apetece partilhar coisas... isso assim e apenas... coisas, ideias, o bem estar, a vontade de crescer, de mudar, de melhorar a vida, a nossa e a dos que estão connosco neste caminho.

Grata por me ter cruzado contigo num dia de inverno, e de me teres permitido ir ficando com tanto sol.

Grata por continuares a escolher partilhar o que sentes e o que pensas."

Susana

GRANDE "MINDO"

Para uma alma muito especial:

Há precisamente 57 anos atrás nascia uma criança, um rapaz, que um dia mais tarde viria a tornar-se num homem profundamente inspirador. Um mestre. Esse homem, com o qual tive o privilégio de partilhar alguns dias, formou-se nos afectos, cometeu loucuras, fez rir e chorar, uniu pessoas e gerou amor por todo o lado onde passou. Soube destinar-se a esta bela missão. Po...

r ser um verdadeiro professor, dedico-lhe o meu próximo livro na esperança que a minha humilde contribuição o faça sentir honrado de tal trabalho mas, também, porque não podia ignorar, de forma alguma, tudo o que aprendi com ele nos últimos 15 minutos em que estive ao seu lado. Este homem, de incomparável nobreza, que não só cantava mas também encantava, deixa na terra um rasto de saudades e um silêncio que ainda atordoa, pois os bons fazem sempre falta e são poucos os que, findada a vida, podem dizer, feitas as contas, que levam tudo resolvido. A ti, meu querido e amado irmão, um voto sincero de parabéns, não pela idade pois as almas não contabilizam anos, mas pela entrega à vida que sempre demonstraste à minha frente. Deve ser um prazer carregar o teu nome. Curiosamente, Mindo e Mundo são duas palavras demasiado parecidas, mas em tamanho, meu querido, tu ainda consegues ser maior, pois os teus abraços alcançavam galáxias. Desejo profundamente que te encontres com as tuas meninas nessas águas de Luanda que já foram tuas e que lhes estendas um enorme tapete de luz por forma a apaziguar-lhes a alguma dor que a tua aparente ausência ainda provoca. A ti meu bom amigo, obrigado. Encontrar-nos-emos em breve.
Abraço

GRATIDÃO (2)


"Olá Gustavo.

Não sei se ainda te recordas de mim, isso não é propriamente importante, porque o motivo que me leva a escrever-te este email é o de te agradecer. Desde o Arrisca-te que fiquei a processar. Desde aquele mês de Abril, que me continuei a afastar do meu caminho até há coisa de uma semana. As tuas palavras estavam sempre presentes na minha mente...

Naquele sábado, tudo fez sentido, mas estaria a mentir se te dissesse que nunca cairam no esquecimento. Que pensei que nunca teriam passado de palavras. Mas, nas situações em ponderei Arriscar, lá estavas tu. Como se a sussurrar 'arrisca'. 'Pensa por ti'. E pensei.

Tomei das decisões mais dificeis. Sozinha. Coloquei no wc a pessoa mais importante da minha vida. Mas também aquela pela qual me deixei influenciar e que, tantas vezes, tomasse as rédias do meu caminho. Hoje, tenho-as na mão.

Estou sozinha, mas estou feliz. Não nego que me falta aquele apoio, que este caminho que escolhi não me está a trazer dor. Mas é um mal menor para uma felicidade maior, assim espero.

Hoje, sou eu que tenho o volante. Não é mais ninguém. E sabes que desde que o assumi, que parece que a vida me começou a retribuir o que tanto pedia. Parece que tudo se tornou mais claro, mais fácil.

Seja o que vier, depois, estou consciente das minhas escolhas e que se errar, foi porque eu escolhi assim e não de outra maneira. Mas a questão aqui é que eu EU escolhi. Por mim. Parei de culpar quem nada tinha haver com as minhas decisões. Porque a culpa do meu fracasso era e sempre foi somente minha.

E tudo isto para numa simples palavra te dizer: obrigada. Como uma pessoa desconhecida pode gerar tamanho impacto. Pode ouvir e ser. Pode ser a tal alavanca que me faz reflectir e seguir em frente. Procurar a tal felicidade que deixou de ser uma imagem platónica ou efémera, para se tornar numa coisa palpável e real.

Por isso aqui te deixo o incentivo. Continua tu também neste caminho de inspirar pessoas. De ser grande. De seres altruísta. De aproveitares a tua visibilidade e influenciares, positivamente, as pessoas que te rodeiam.

Acredito que seja um em muitos agradecimentos, mas acredita, sinto-te como especial e nunca me irei esquecer daquele dia e de tudo aquilo que ele me ajudou e me permitiu fazer. A mim. Eu sei que estava em mim, sempre estive à beira do abismo, nunca fui corajosa o suficiente para fechar os olhos e flutuar.

E aqui estou eu, a flutuar.

OBRIGADA."

Anónima

GRATIDÃO (1)


"Olá meu querido Gustavo,

não sabia que as tuas frases diárias tinham sido um objetivo, que seriam apenas e só 365 dias. Fico com pena.

Desde que fui ao teu workshop, que fazes parte da minha vida diá...
ria. Gostava de te ler, mas não sentia aquela ânsia de ir a correr logo que acordasse para ir ver algo que tivesses posto no Facebook.

Não! Tu até sabes que eu nem era muito adepta do FB.

Foste tu que me deste as ferramentas - eu própria -, para que eu visse dentro de mim como poderia ser mais feliz, como poderia mudar a minha vida para melhor.

Ainda não o sou completamente, oh! ainda estou muito longe disso, ainda tenho um longo caminho a percorrer, pois sabes, que me alertaste com demasiada informação que eu tenho dentro de mim e que tenho que gerir.

Mas eu chego lá. Agora, mais do que nunca, tento viver um dia de cada vez, intensamente(ainda difícil), faço e digo o que quero e como quero, o que mereço e eu consigo. Vivo o AGORA.

Deste-me a conhecer um grupo maravilhoso em que todos os dias aprendemos umas com as outras. São todas elas, pessoas maravilhosas. Diferentes e únicas. Temos caminhado juntas, como sabes, devagarinho mas temos conseguido.

Não sou ainda Feliz completamente. Ainda tenho que mudar muito a minha atitude em relação a muitos pormenores na minha vida. Mas, estou, sinto-me, cada dia mais leve, mais um bocadinho feliz, por me teres ensinado tanto. Ser-te-ei eternamente grata por isso. Porque mereces.

Vou confessar-te, foste e és tão importante para mim, que desde Maio, resolvi reservar, um caderninho diário que quase sempre anda comigo, onde escrevi as tuas frases diárias do Facebook e outros histórias sobre os teus livros. No fundo, foi uma espécie de guia diário.

Quando vou trabalhar, no trajeto, quando sinto necessidade de algo mais do que ler o meu livro, ouvir a minha música ou simplesmente ver a paisagem que já vi vezes sem conta ou mesmo quando vou a outro lado qualquer, é esse pequeno caderno que releio o que escreveste e penso e me questiono mais profundamente.

E sabes, nesses dias, que acordo mais em baixo, esse caderninho faz milagres.

Espero que não te importes, um dia combinamos e mostro-te e já agora podes autografá-lo também.

Poderia, ainda aqui, enumerar-te coisas que já consegui ultrapassar, mas basta o facto de saberes que eu Consegui, que sei que ficas feliz por mim.

Eu sou feliz por te ter como Amigo, por tudo o que me ensinaste e que ainda me virás a ensinar. Sim! Porque eu quero mais.

Quero que continues a inspirar pessoas. Seja lá através do que for. Os teus livros são ensinamentos.

Eu já te conhecia através deles, mesmo antes do "Arrisca-te". Portanto, continua essa tua paixão que te completa e que fazes tão bem. Mereces.

És um Senhor. És um Homem de H grande. Que Deus te abençoe e te guie nessa tua linda missão.

Vou continuar a seguir o teu trabalho. Vou chatear-te um pouquinho, de vez em quando. Vou pedir-te para te ver, para bebermos um café.

Enfim, no fundo, para te dar e sentir , apenas e só, um Grande Abraço,

Espero que não te importes.

Não te maço mais, que tenhas tudo de bom na vida, principalmente saúde e continua assim, porque és único.

Fico a aguardar os teus próximos livros, workshops, …. E quem sabe se gostas da ideia de escreveres um espécie de caderninho diário, como o meu, só que muito melhor!

Fica Bem.

Beijinhos Grandes de Paz."

Ana Paula

A VITÓRIA DE SÔTOR


O meu melhor amigo chama-se Sôtor. Foi, propositadamente, baptizado com este nome para arrancar sorrisos a quem quer que fosse e por onde quer que passasse e a verdade é que o consegue com a maior naturalidade e genuinidade possível. É um puro. Um coração puro. É por isso que me identifico tanto com ele, ambos gostamos de fazer o bem, de inspirar pessoas e de curtir a vida. E o que temos curtido os dois. Tão bom. É um cão de fazer parar o trânsito. Literalmente. É um ser especial que muitas vezes, e no silêncio que lhe apraz, me ensina a ser melhor, me convida a viver com ele no “Agora” e me inspira nos momentos de maior tensão. Ensinou-me, entre tantas outras coisas, que a vida se pode viver numa profunda tranquilidade e com as mais pequenas coisas desde que exista afecto, comida, bebida e saúde. Que lição. É um professor.
Ontem, vivemos os dois um terrível susto. A saúde faltou-lhe e eu tive-o por um fio ao meu colo, ainda assim, vi-o agarrar-se à vida com a mesma intensidade e a mesma entrega com que me fareja quando brincamos às escondidas ou quando me traz a sua bola azul e branca (porque será?) depois de eu a ter atirado para o mais longe possível. Gosto de vê-lo a correr, gosto da sua velocidade e da sua elegância, gosto de vê-lo de língua de fora, cansado por ter vivido, e a sorrir. Sim, ele sorri. Amo aquelas ruguinhas no seu focinho. Este susto, do qual ainda não nos livrámos, não me veio valorizar absolutamente nada em relação a ele, pois ainda vinte e quatro horas antes o tinha sentado na relva, abraçado e dito aos ouvidos: “amo-te, amo-te, amo-te”. Ontem, perguntei-me se tinha dado o meu melhor: dei! Perguntei-me se lhe tinha proporcionado uma vida feliz: sim! E perguntei-me se sentia alguma espécie de culpa: não! Em lágrimas, passei esta noite resolvido.
Agora, é óbvio que existiu uma mais-valia neste acontecimento: vocês.
Gostaria de agradecer individualmente a cada um, mas foram milhares de pessoas, como tal, este é um agradecimento colectivo. Faço questão que saibam que as vossas palavras ao longo de toda a noite foram o reforço da minha esperança quando a mente me toldava a fé, foram a confirmação de que a maldade nunca triunfa quando escolhemos gerar uma corrente de mãos dadas e que a vida só faz sentido quando nos enlaçamos no amor. O Sôtor teve direito a Reiki à distância feito por pessoas oriundas do Facebook e que desconheço, esteve no pensamento de milhares de vocês e nas mais variadas formas de fé. Acredito profundamente que só isso, aliado ao amor dos donos e à extrema competência das médicas fez com que ele continuasse entre nós.
Obrigado, obrigado, obrigado.
Hoje foram vocês que nos acudiram com o vosso amor, quero que saibam que estamos aqui quando for a vossa vez. Dar e receber. Incondicionalmente.


PS – O Sôtor manda o seguinte recado: não comam frango cru e muito menos se o encontrarem num bosque com uns pozinhos em cima. Lambidelas para todos. Ao Ao…

AS MALDITAS TOURADAS

Foi agastante, frustrante e decepcionante assistir "ontem" ao péssimo serviço que a RTP prestou ao país. Transmitir, e uma vez mais, uma tourada em prime time é dizer às pessoas que podem continuar a fazer mal aos animais e que tal e horrendo trato ainda se pode designar de espectáculo ou entretenimento das massas. Tourada não é arte nem cultura, é tortura. Faz-me lembrar os anos da total inconsciência em que as pessoas iam aos coliseus para ver a morte. Já não estamos no tempo dos gladiadores meus senhores, estamos numa era de afectos e é por isso que, pela escolha que fizeram, não vos posso chamar de outra coisa senão de incompetentes. É preciso inspirar as pessoas com mensagens positivas e atitudes nobres, não com chacinas ao vivo e aplausos pela dor. É preciso dar-lhes amor e não provocar este asco que, certamente, não fui o único a sentir. Se têm um canal para fazê-lo, façam-no sempre. É o vosso papel, é a vossa missão. Há gente com muito menos exposição a fazer muito mais pela humanidade que vocês. E para que conste, não chegam aos calcanhares de um animal destes. Seria interessante ver a vossa reacção enquanto vos fazem de parvos em cima de belos cavalos e a espetar umas farpas valentes pelos vossos tecidos abaixo, seria interessante perceber se não se mijavam de medo, seria interessante saber se ainda investiam e lutavam pela própria vida. Seria interessante que se deixassem de touradas e se tornassem homens na verdadeira acepção da palavra. Mas esta é apenas a minha opinião.

EM PORTUGAL...

Portugal ainda é um país de poucos líderes e muitas vítimas. A maior parte das pessoas passam a grande parte do tempo adormecidas e só acordam para culpar as outras e lamentar-se pelo estado em que se encontram as suas vidas sem que nunca lhes passe pela cabeça a responsabilidade das suas próprias escolhas. Camelos. Os que se mexem são julgados e os que reivindicam aquilo em que acreditam são atacados por esta moldura, pouco humana, de gente que a preguiça tornou má. Sim, preguiçosos, pois só não mudam se não se mexerem. Para se conseguir marcar a diferença e consumar a mudança neste país de rumo tão amargo e previsível são necessárias décadas de investimento pessoal e uma profunda capacidade de aceitação, perseverança, confiança e humildade. Se assim não for, e por muito boas que sejam as tuas intenções, nada conseguirás, pois este ainda é um país de desistentes e sem um verdadeiro sentido de missão tornar-te-ás, mais tarde ou mais cedo, num deles. Diariamente faço o que está ao meu alcance sem por uma única vez me queixar das portas que o medo de quem pode não abre, ainda assim, não me chega. Há tanto por fazer aqui, tanta pessoa errada nos lugares certos, tanta sujidade no leme do país e tanta gente, a maioria, que só reclama de mãos nos bolsos sem que as ponha a agarrar os seus sonhos. Em Portugal há pouca gente a sonhar, as pessoas preferem falar sobre pesadelos, é mais fácil, têm assunto que lhes chegue e não precisam fazer mais nada. Amontoam-se feitos ovelhas e caminham às cegas. Reconheço que entre tanta inconsciência, também já consigo identificar muitos dos grandes obreiros que, certamente, terão uma palavra a dizer, mas quanto tempo levaremos? Eu, afirmo, não dedicarei a minha vida inteira a um país de gente ingrata, não merecem, e como tal, a verdade é que estou a preparar-me para voos mais altos onde as pessoas se multiplicam em vez de se dividirem como aqui. Aos que se identificam e cumprem diariamente a sua missão não me refiro a vocês e orgulho-me do vosso caminho assim como me orgulho do meu. Sempre desperto, sempre grato, sempre disposto a abraçar mais além.

PARALÍMPICOS

Os Paralímpicos não são atletas com necessidades especiais, são pessoas com capacidades especiais. É diferente. Ou olhas para o que eles precisam ou vês o que eles conseguem. E conseguem. Conseguem tanto. Mais do que tudo, conseguem ser gratos. Gratos pelo que têm ainda que tu tenhas mais do que eles, gratos pelo que podem ainda que tu possas mais do que eles, gratos pelo que são, inteiros ou não....
São gratos e é por isso que conseguem. Isto diz-te alguma coisa? Num ponto somos todos iguais, somos todos almas com uma missão pela frente. A deles é inspirar superando-se todos os dias e a tua? Sabes quem és tu e o que andas aqui a fazer cheio de saúde? Se “sim”, tiro-te o meu chapéu e reconheço-te pelo mérito do que já alcançaste, se “não”, começo a pensar que, de facto, existem pessoas com necessidades especiais. Esta gente de elite prova todos os dias que o corpo se reinventa e que nada é impossível, portanto, e nesse ponto de vista, ainda que com diferenças cabais, todos somos capazes de tudo desde que o queiramos, agora, no que diz respeito ao carácter não existem adaptações que possam ser feitas. Ou tens ou não tens. Ou és um lutador ou és um ingrato, pois se até um amputado corre e nada mais rápido do que tu e se alguém com paralisia cerebral consegue sentir e conquistar mais do que tu e tu nem pensas nisso e isso nem te inspira a ser melhor, é porque, de facto, não há motivo nenhum para aqui estares. Consegues sentir o que te estou a dizer? Se não conseguires, deixo-te uma sugestão: inscreve-te nos próximos Jogos Parvolímpicos. Pode ser que conquistes alguma coisa. Escuta, em alguma coisa hás-de ser bom.
Parabéns a esses tremendos guerreiros. A minha sentida e merecida homenagem.
Obrigado.

EXCERTO DA INTRODUÇÃO



"Hoje em dia, confesso, considero ser de um enorme risco, assumir a diferença. E a diferença não é mais do que... agir. Sim, ação! As pessoas estão petrificadas pelo medo, dentro e fora delas prolifera a frustração, a angústia, o rancor e uma ausência tremenda de amor próprio e paixão pela vida. As guerras interiores são muito mais devastadoras que as exteriores e a incapacidade de perdoar, aceitar e amar os outros e a vida ganha contornos cada vez maiores no coração dos mais vulneráveis... e são tantos!

Tenho uma palavra para ti.

Sim, tu que me escolheste para te desafiar!

Queres, finalmente, conhecer a tua intimidade e ser feliz?

Eu sei que tens tentado. Eu sei que estás sem força. Não és a única pessoa nesse estado! Desistir é uma escolha tão válida como persistir. O que é que queres fazer? Ainda há algo em ti que acredita ser possível existir uma realidade melhor que aquela que tens? Ou não, e preferes ficar eternamente na tua zona de conforto como protagonista da peça, “O coitadinho”?  Vais continuar a contar-te e a contar-nos essa história ou vais rasgá-la, fazer desse texto uma bola de papel e jogá-la no lixo? Tens o poder de escolher... aqui e agora! Tens a oportunidade de arriscar.

Escrevo para ti, que escolheste dar esse passo em frente.

Só dou a quem se dá e nunca passo a minha mão pela cabeça de ninguém quando a pessoa em causa insiste em tê-la tombada por falta de coragem. É uma questão de identificação ou, neste caso, falta dela, de princípios e de valores.

Sei que te tens esforçado por trilhar um caminho diferente daquele que te levou até aqui. Sei que tens escolhido assumir as rédeas, ainda que de forma infrutífera, da tua vida com o objectivo de abandonar o padrão e o modelo que conheces. Mas olha, quantas vezes te deixaste aliciar e manipular pelos outros, pelos que têm ainda mais medo que tu, a não ir mais além, a não fazer o que desejavas, a não arriscar? A tua pequena convicção foi, assim, engolida por todo o género de argumentos e sem saberes bem porquê, voltaste a cair onde já estavas, pior do que quando tentaste sair, pois o cansaço do insucesso é, tremendamente, mais forte que uma corrida à volta do mundo inteiro.

Sabes que mais, respira fundo, não há nada de errado nisso.

Agimos todos consoante as nossas referências. Refiro-me aos nossos educadores: pais, professores e, nalguns casos, a igreja, mas a verdade é que por muito que eles tenham dado o melhor deles e se empenhado na nossa formação, e não foram assim tantos, verdade seja dita, por vezes esse “melhor” deixa de ser suficiente. Esta tomada de consciência é fundamental na nossa vida, pois quem nos educou fê-lo com os medos associados à sua própria experiência ou respeitando doutrinas que são tudo menos libertadoras, nunca ou raras vezes nos incentivando a arriscar ou a ir mais longe do que eles. É, pois, preponderante chamarmos a jogo o verdadeiro responsável pela pessoa que podemos vir a ser.

Cada um de nós.

Neste livro, alimento ideias e partilho as ferramentas que disponho por forma a potenciar a tua nova oportunidade, assim como te entrego, para que escolhas acreditar ou não, aqueles que considero serem os principias vectores de uma vida íntima e plena de felicidade, rumo à paz.

Ser-te-ão propostos alguns exercícios e, frequentemente, encontrarás perguntas às quais te recomendo responder. Umas serão mais fáceis, outras de mais difícil resposta, ainda assim, pega numa caneta e escreve, rasura, e volta a escrever aquela que, no momento, representar a tua verdade. Não tenhas medo do que sentes. Não hesites mais uma vez. Começa por ser verdadeiro contigo e confia. Eu tenho as melhores perguntas, tu terás as melhores respostas.

Há um objectivo implícito no que te estou a pedir.

No momento em que me fores lendo e chegando, por identificação, mais perto de ti, da tua intimidade, vais definindo, através das resposta que fores dando, o teu Estado Actual, ou seja, quem, aparentemente, tu és e onde te encontras. Depois, quando chegares ao fim do livro, fecha-o, e quando te sentires em paz, volta a abri-lo, regressa ao início, ignora as minhas palavras e foca-te, apenas e somente, no que escreveste. Volta a pegar na tal caneta e se sentires o palpitar de uma nova verdade, risca o passado e assegura-te de um presente melhor. Não tenhas receio de estragar o livro. Ele não é sagrado, a tua vida sim, é! Se isso acontecer, se alguma das respostas que deste aquando da segunda passagem for diferente da que deste na primeira leitura, significa que estarás mais perto do teu Estado Desejado, do teu “eu” verdadeiro, despido de medos, bloqueios e preconceitos. Obviamente que isso representará para mim um sentimento eterno de gratidão pela oportunidade que me deste de fazer parte dos teus dias, das tuas noites e do teu silêncio, mas também, e acima de tudo, uma enorme fonte de motivação para ti, para assumires, de uma vez por todas, o risco como um princípio e a acção como único caminho para o teu sonho.
A viagem começa agora."

in "Arrisca-te a Viver", 2012

O AMOR DE JOÃO E ÍRIS



"Viveram o apogeu do amor com as luzes, lá em baixo, da cidade e, lá em cima, da lua como únicas testemunhas. Na silhueta dos seus corpos, reflectiam-se, através do luar, traços translúcidos que caíam do céu e se esmagavam nos dois grandes vidros que delimitavam a sala do precipício. As suas peles, macias como seda quando suadas pelo esforço físico que o amor exige, moldavam-se às intenções do outro como se fossem matérias primas, produzidas por mariposas, e à medida que a noite ia ganhando contornos cada vez mais negros, os seus corpos, segundo após segundo com mais motivos para transpirar, iam ficando mais cintilantes como se fossem uma mescla de prismas, refractores de luz. Era assim que se amavam. E era assim que gostariam de se ter continuado a amar."
in "A Dança da Vida", 2010